22 abril 2008

A queda do Walhala

[Crônica da cobertura XII FAO, Manaus, 2008]

O castelo-tumba da ópera manauara já não abriga mais os deuses da ópera, agora pouso dos mandarins chineses

Não deixa de ser esquisito, mas sim, no meio da floresta amazônica tem uma cidade, e no centro desta cidade tem um hotel chamado Taj Mahal. Fica ainda mais esquisito se lembrarmos que o célebre monumento indiano é o mausoléu que o imperador Shah Jahan edificou em memória de sua esposa favorita. Se o mausoléu é o lugar do repouso eterno, o Taj Mahal manauara, no entanto, é menos ambicioso, proporcionando aos seus hóspedes apenas o descanso efêmero dos mortais, zelados pelo “duty manager” Matuzalem, que por anos a fio jamais abandonou seu posto, apesar de nunca alguém tê-lo visto (ao menos nenhum outro nome foi lido na plaquinha abaixo). Eis um gerente que, de fato, é uma lenda.

Fundado em 1991 por Kishin J. Harjani (informação insistentemente colocada nas placas do lobby do hotel) o Taj Manaus, ops, o Taj Mahal foi por anos a casa temporária do verdadeiro pelotão que anualmente se põe a serviço do FAO. Junto com o Teatro Amazonas, tornou-se um lugar em si mítico ao longo destes anos de festival: se suas paredes falassem, elas nos diriam muito mais que uma análise dos portamentos e das coloraturas dos cantores que já se hospedaram nele.

Atualmente apenas a imprensa se hospeda nele. Antigo Walhala dos deuses da ópera manaura (o castelo da mitologia nórdico-germânica, presente no enredo do “Anel do Nibelungo”, de Wagner), o Taj Mahal foi preterido pelo conforto e a estrutura dos modernos hotéis de redes, mesmo que estes contem com a inconveniência de uns 20 minutos de carro de distância do Teatro Amazonas.

Mas tão mítico quanto o Taj Mahal é seu vizinho gastronômico, o restaurante e pizzaria Scarola (sic), que em momentos especialmente aborrecidos de sua clientela musical era momentaneamente batizado de chicória (afinal, mudando o nome da escarola, ela não fica mais tão gostosa). E para quem pensa que maestros, diretores e cantores se reúnem secretamente numa sala reservada no teatro para comemorar seus feitos artísticos, em muito se engana. O Scarola foi o palco de muitas celebrações, pois depois das ovações no teatro era da sacadinha do famigerado “bistrô” que os artistas recebiam os aplausos acalorados de seus colegas: Brunhilde, Otello, Wotan, Freia, Poranduba, Lady Macbeth, Siegfried, Desdêmona, Werther, Mime e toda uma infinidade de cantores-personagens foram calorosamente aplaudidos ao entrarem no Scarola, esquivando-se da fumaça da grelha estrategicamente colocada na entrada.

Mas os tempos são outros, e apesar dos deuses manauras estarem longe de seu crepúsculo (e espera-se que este lusco-fusco jamais chegue), sua antiga morada não mais lhe serve de abrigo. Mas quando um ninho é abandonado por um pássaro logo vem outro e ocupa seu lugar. Aos poucos o antigo Walhala manaura ganha ares de Cidade Proibida, com a chegada cada vez mais intensa dos mandarins do extremo oriente, tal como fica claro nesta foto tirada secretamente, com a porta entreaberta, de um cômodo escondido localizado no térreo...


2 comentários:

viralata disse...

hauahauahuah!!!! Não se preocupe pois os 'mandarins' também infestaram o novo lar dos 'deuses'...kkkkk, eles se multiplicam rápido mesmo e continuam a devorar melancias no café-da-manhã.
;)

Anônimo disse...

Caro Schu,

Espero que o Scarola - que vc cita com riqueza de detalhes e nos faz lembrar (e rir) de muitos momentos pós-lírica - não se veja também invadido pela culinária sino-coreana e que a picanha continue sendo bovina (se é que a gente não comeu gato ou cavalo por lá).
Divertidíssimo!!
Aliás fiquei feliz com suas considerações sobre o Glutão de Windsor...
Abraço