12 março 2006

Sidney Molina, violonista do grupo Quaternaglia.

Umas das grandes peculiaridades do Quaternaglia é que, ao contrário da grande maioria dos grupos de câmara que executam um repertório pré-existente, em torno de suas atividades foi criado um repertório novo, praticamente cativo ao grupo. O que o motivou isto?

Na verdade, consideramos isto uma fase de nosso trabalho. Nosso primeiro álbum, por exemplo, apenas uma peça foi composta especialmente para nós, sendo o restante dedicado a obras de grandes compositores clássicos, como cubano Leo Brouwer, e com transcrições para quatro violões de peças de Heitor Villa-Lobos e Igor Stravinsky. Já no segundo disco passamos para um repertório totalmente diferente, dedicado às transcrições de música antiga, uma época em que a indicação da formação instrumental não era parte da composição musical e por isto foi possível sua adaptação para a nossa formação. Apenas posteriormente é que nosso trabalho começou a despertar o interesse de compositores que então passaram a escrever um repertório criado especialmente pra nós. E tivemos a sorte de contar com grandes músicos como Egberto Gismonti e Paulo Bellinati. Este trabalho posteriormente estendido a compositores de uma nova geração, ao mesmo tempo em que passamos a resgatar do esquecimento verdadeiras obras primas, como um quarteto de Radamés Gnatalli.

Qual é a diferença em trabalhar a obra de um compositor vivo?

Nós sentimos que os nossos critérios de interpretação, como a leitura da partitura e o emprego da técnica instrumental, não são os únicos que irão determinar o resultado final. Quando um compositor que acompanha nosso trabalho estabelece-se uma relação que defino como uma “saudável tensão”. Nem sempre o compositor aceita todas as sugestões iniciais do grupo. Por outro lado, o compositor nem sempre está a par das problemáticas de um quarteto de violão e a partir daí estabelecemos um diálogo para obter um melhor resultado musical. Curiosamente, é a partir deste processo conflituoso que surge uma interpretação musical mais madura, para somente então ser apresentada e gravada.

Apesar do direcionamento notoriamente clássico do grupo, o violão é por natureza um instrumento ligado à cultura popular. Como é lidar com este aparente antagonismo?

Acredito que um importante ponto de diferença de nosso grupo é que todos nós possuímos formação clássica, principalmente no que se refere à técnica do instrumental. Temos como referência grandes violonistas clássicos, como Andrés Segovia, por exemplo. Pelo outro lado, há um amplo leque de relacionamento entre o popular e o erudito que cotidianamente temos que lidar em nosso repertório, e como intérpretes, temos que estar preparados para lidar as diversas facetas desta união. O que nos interessa é justamente uma escritura musical que ponha estas diferenças e semelhanças em pauta, que trate destas questões, destes antagonismos.

No ano passado, o Quaternaglia realizou sua quinta turnê pelos EUA. Como foi a recepção do público norte-americano diante da proposta toda particular do grupo?

Além de uma ótima receptividade junto ao público fomos muito bem recebido pela crítica especializada local, com diversos artigos e resenhas sobre nossos concertos (coisa rara de acontecer aqui no Brasil). Creio que os pontos contaram ao nosso favor são nossa ênfase ao trabalho camerístico, a nossa constante busca por uma cor e sonoridade própria e a própria questão do repertório.

Para a nossa surpresa, nosso repertório tem sido muito bem aceito, inclusive as obras dos jovens compositores, tais como Paulo Tiné, Douglas Lora, Rodrigo Vitta, e Sergio Molina. E isto mesmo diante de clássicos do repertório violonístico mundial. Curiosamente, muitas obras originalmente escritas para nós estão sendo gravadas e apresentadas por outros grupos estrangeiros como, por exemplo, o renomado Los Angeles Guitar Quartet, que já gravou três peças de nosso repertório.

Um comentário:

Fabricio disse...

parabens pelo bllog, adorei pel fato de ter faldo sobre o quaternaglia, adoro esse quarteto de violonistas, ultimamente eu to tão animado pois eles vão tocar no auditorio ibirapuera de 22 a 24 de fevereiro e eu ja comprei pra todos os dias
hahaha, mas é que eu gosto mesmo do trabalho deles.
Bom deixa eu parar com isso
abraços , e agora vou virar visitante oficial em
hahahaha