A história se passa em meados do século XVIII, mas é com uma ambientação pop e diversas referências à política e aos políticos atuais (que não parecem ter mudado muito desde então) que a história do anti-herói Cândido surge nos palcos paulistanos.
Trata-se do espetáculo musical “Candide”, do compositor e regente norte-americano Leonard Bernstein (1918-1990), que depois de uma temporada carioca no ano 2000, estreou em “versão concerto encenada” na sexta-feira passada – dia 28 de outubro – no Theatro Municipal de São Paulo, sob a direção cênica de Jorge Takla, com a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Lírico sob a regência de José Maria Florêncio.
Espetáculo musical é, talvez, o termo menos perigoso para definir esta obra de Bernstein, que em 1956 estreou como um musical da Broadway, mas que desde então passou por diversas modificações para as mais diferentes ocasiões, tal como viria acontecer com sua obra mais famosa, o musical “West Side Story” (no Brasil, curiosamente traduzido como “Amor sublime amor”).
Baseado na novela setecentista “Candide ou L’Optimisme” (“Cândido, ou o Otimismo”) de Voltaire, a versão de Bernstein – em colaboração com a roteirista de cinema Lillian Hellman – surgiu como um meio de ironizar subliminarmente toda a perseguição política empenhada pelo senador Joseph McCarthy nos EUA da década de 1950.
Um dos grandes momentos da noite foi a incendiária atuação da mezzo-soprano Regina Elena Mesquita (Velha Senhora) e do hilariante quarteto de “señores” (Diógenes Gomes, Sandro Bodilon, Miguel Geraldi e Sérgio Weintraub) no número “I am easily assimilated” (“Camaleoa”), evidenciando toda a energia inerente à partitura de Bernstein.
O musical norte-americano é um descendente direto da ópera européia, mas uma das grandes diferenças entre ambas é que, no musical, o cantar é menos “empostado” que na ópera, o que acarreta na necessidade de amplificação eletrônica da parte vocal, o que nem sempre é bem visto tanto pelos cantores como pela audiência lírica. Em “Candide” a amplificação vocal foi sutil e cumpriu sua função de, discretamente, auxiliar os cantores.
Apesar deste problema, nada compromete o “Candide” paulistano, um espetáculo que, além de divertido, que conta com a música de um dos grandes músicos do século XX, ao contrário da grande maioria dos musicais da Broadway e do Teatro Abril.
[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!]
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