17 fevereiro 2007

Um nonagenário chamado samba

Gravação histórica de "Pelo Telephone" resiste ao tempo e completa 90 anos.

“Pelo Telephone! Samba carnavalesco gravado pelo Bahiano e corpo de Coro, para Casa Edison, Rio de Janeiro”, diz quase aos berros uma voz masculina aguda, pouco antes de um violão, um cavaquinho e um clarinete atacarem de forma um tanto claudicante os primeiros acordes de uma execução que iria entrar para a história da música brasileira. É assim, entre chiados típicos de discos antigos e seu timbre distorcido de vozes e instrumentos musicais que surgiu o documento histórico que é considerado a certidão de nascimento do samba. É no princípio do ano de 1917 que surge no incipiente, porém rico mercado fonográfico brasileiro, os primeiros discos com a palavra “samba” em seus rótulos.

Neste início de 2007 esta gravação do samba carnavalesco Pelo Telephone completa noventa anos de idade, e permanece forma muito viva, seja pela remasterização do fonograma original ou por meio de novas versões de músicos modernos. Entretanto, ainda muito viva são as controvérsias que cercam esta canção, entre as quais, a sua autoria.

Com música de Ernesto Joaquim Maria dos Santos (popularmente conhecido como Donga) e texto de João Mauro de Almeida, Pelo Telephone foi um grande sucesso no carnaval carioca de 1917. Porém, pesquisadores e especialistas têm argumentado que parte deste sucesso deveu-se, talvez, pelo fato da canção já ser conhecida anteriormente em meio a algumas comunidades populares do Rio de Janeiro. Entre tantos detalhes e fatos esquecidos ou propositalmente colocados de lado, apenas um mergulho histórico pode nos ajudar a entender melhor a magia e os mistérios que circundam o surgimento deste gênero musical que é considerado por muitos a própria essência da cultura popular brasileira.

Precaução ou malandragem?

Apesar do senso-comum que diz que a gravação de Bahiano de Pelo Telephone deva ser considerada a certidão nascimento do samba, é bom esclarecer que se trata uma atribuição de cunho mais simbólico do que necessariamente histórico. Mesmo antes de a música ganhar as residências brasileiras pela voz de Bahiano, ela já havia sido gravada em versão instrumental pela Banda Odeon, possivelmente pouco tempo antes de sua interpretação (o disco de Bahiano está registrado sob a numeração 121.322A, e a da Banda Odeon 121.313B). É da mesma época uma terceira versão da música, gravada pela Banda do 1º. Batalhão de Polícia da Bahia.

Entretanto, antes mesmo da música ganhar seus primeiros registros fonográficos, está registrado que em 6 de novembro de 1916 Donga entra com uma petição no Departamento de Direitos Autorais, repartição da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Mais especificamente, a petição trata-se de uma pedido de registro de uma partitura de samba com o título de Roceiro. Dez dias depois, Donga anexa ao processo uma declaração na qual diz que a música havia sido estreado em 25 de outubro daquele mesmo ano, ocorrida no Cine-Theatro Velho.

Estudos indicam que as notas musicais utilizadas para o registro da partitura para piano foram manuscritas por Pixinguinha, músico com quem Donga iria integrar o lendário grupo “Os Oito Batutas”. Consta ainda que na nesta partitura esteja indicada uma dedicatória a “Morcego” (apelido de Norberto Amaral) e a “Peru” (Mauro de Almeida, o letrista da música). Foi possivelmente no hiato entre o registro e a primeira gravação que a canção ganhou o nome de “Pelo Telephone”, ao mesmo tempo em que ganhou a letra que seria cantada por Bahiano (somente nesta gravação é que o nome de Mauro de Almeida surge associado autoria da canção).

Documentalmente, não há como refutar a primazia autoral de Donga sobre a parte musical de Pelo Telephone. Entretanto, pesquisas históricas realizadas no âmbito da cultura popular carioca indicam que mais do que uma obra de um único criador, Pelo Telephone fazia parte de uma cultura musical coletiva.

É o que conclui o historiador José Ramos Tinhorão, em seu livro História Social da Música Popular Brasileira. Ao tratar das festas populares realizadas nas chamadas “casas de baianas” nos subúrbios cariocas, Tinhorão defende que “em fins de 1916 um desses participantes resolveu aproveitar algumas estrofes com certeza ali muitas vezes repetidas, para um arranjo ampliado com novos versos”. Em meio ao estereótipo de aproveitador que o sambista já então detinha, não fica difícil concluirmos que o registro autoral de Pelo Telephone tenha sido um ato de malandragem. Porém, o historiador vê o fato sob uma outra perspectiva, como algo que “vinha a revelar o início do processo de profissionalização dos músicos com talento criador saídos das camadas populares”.

A questão dos direitos autorais na cultura popular foi e é um problema muito difícil de ser resolvido. Entretanto, à época da “criação” de Pelo Telephone, os debates em torno da questão estavam longe de terem as gigantescas proporções que este assunto tem nos dias atuais, em parte por responderem a uma parcela do contexto econômico muito menor que nos dias de hoje. Em depoimento gravado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Donga dá a entender que queria apenas profissionalizar algo que só se fazia informalmente.

“Bem, o negócio sempre foi de improviso. Nós tínhamos nos tornado simpáticos, tocando de graça. Cansei de tocar de graça em todos os salões. [...] Eu sempre fui o orientador da turma. Não sei por que, eu é que resolvia a parte comercial, os serviços”, diz Donga poucos anos antes de morrer, em 1974, já aposentado como oficial de justiça.

De fato, se por um lado o surgimento de Pelo Telephone desempenha papel fundamental no entendimento artístico da música popular brasileiro, pelo outro ele não deixa de ser um símbolo da profissionalização de toda uma categoria profissional. Trata-se de algo de relevância, tendo em vista a histórica relação entre os músicos populares e a informalidade profissional e educacional (de certa forma, presente inclusive nos dias de hoje).

Se ainda atualmente a contestação da autoria individual de Donga sob Pelo Telephone permanece, é tempo de entendê-lo como o portador de uma tradição cultural na qual ele nasceu e vivenciou, sendo ele uma figura determinante em sua codificação, fato que possibilitou que toda uma prática musical se mantivesse relativamente acessível nos dias de hoje.

O menino da casa de Tia Amélia

Como era muito comum com os músicos de sua época, Donga vinha de uma família simples do Rio de Janeiro. Era filho do pedreiro Pedro Joaquim Maria, que nas horas vagas tocava bombardino, instrumento aparentado com a tuba muito utilizado nas bandas marciais e de coretos da época. Porém, apesar da ascendência musical por parte de pai, é sua mãe, Amélia Silvana de Araújo (popularmente conhecida como Tia Amélia) que se mostrará como uma influência decisiva em sua vida. A exemplo do que ocorria em diversos bairros da periferia carioca, era em torno das “casas de baianas” que a cultura negra podia ser praticada resguardada das repressões policiais. Tia Amélia era a matriarca da principal casa de baianas da Cidade Nova, modelo este que ocorria em diversos lugares da então capital federal, tais como Tia Dadá, na Pedra do Sal, e Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna.

Eram nessas casas que gêneros musicais ligados à cultura negra – tais como o maxixe, o lundu e a modinha – eram livremente praticados, seja em grandes festas ou em pequenas reuniões. É neste contexto que o próprio samba surge, tal como relatado por diversas fontes históricas.

Porém, apesar de gozarem de ampla aceitação nas chamadas camadas populares cariocas, foi apenas com o crescimento da indústria fonográfica brasileira – alavancada pelo pioneirismo de Frederico Figner e sua Casa Edison – que este gênero de música popular urbana passou a entrar nos lares das elites econômicas de então, rivalizando com gravações de Tangos, Schottisch e de música clássica.

Em pouco tempo, o samba, bem como outras as práticas musicais exercidas por negros, impuseram-se como elemento principal de nossa identidade musical, ao ponto do próprio Donga, junto com Pixinguinha e os Oito Batutas, terem excurcionados pela Europa e participado de gravações internacionais enquanto representantes de nossa cultura musical.

Hoje em dia o samba é um fenômeno rico, multi-facetado em diversos segmentos como samba enredo, samba de breque, samba-canção, etc. Talvez os ouvidos modernos tenham dificuldade de reconhecer em Pelo Telephone o gérmen inicial do samba, que a despeito de qualquer predileção ideológica ou estética, constitui-se ainda símbolo fundamental da identidade musical brasileira.

Serviço:
Várias versões históricas de Pelo Telephone podem ser ouvidas gratuitamente no site do Instituo Moreira Salles (www.ims.com.br). A remasterização em CD de Pelo Telephone pode ser encontrada no livro “A Casa Edison e seu tempo”, de Humberto M. Franceschi (Sarapui/Biscoito Fino, R$ 200).

Fotos: 1) Interior da Casa Edison, na Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, início do século XX; 2) Dona (esq.) sendo apresentado por Villa-Lobos (dir.) ao maestro Lepold Stokowski (centro).

[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

Pelo Telephone

Música de Donga, com texto de Mauro de Almeida.

O chefe da folia pelo telephone manda lhe avisar
Que com alegria não se questione para se brincar
Ai, ai, ai. Deixa as mágoas para trás ó rapaz.
Ai, ai, ai. Fica triste se é capaz, e verás.

Tomare que tu apanhes
Para não tornar a fazer isto
Tirar amores dos outros
E depois fazer seu feitiço

Ai, se a rolinha (Sinhô, sinhô)
Se embaraçou (Sinhô, sinhô)
É que a avezinha (Sinhô, sinhô)
Nunca sambou (Sinhô, sinhô)
Porque este samba (Sinhô, sinhô)
De arrepiar (Sinhô, sinhô)
Põe perna bamba (Sinhô, sinhô)
Mas faz chorar (Sinhô, sinhô)

O "Peru" me disse se o "Morcego" visse eu fazer tolice
Que eu então saísse dessa esquisitice de disse-não-disse.
Ai, ai, ai. Aí está o canto ideal, Triunfal
Ai, ai, ai. Viva o nosso carnaval sem rival.

Se quem tira o amor dos outros por Deus fosse castigado
O mundo estava vazio e o inferno habitado.

Queres ou não (Sinhô, sinhô)
Vir pro cordão (Sinhô, sinhô)
É ser folião (Sinhô, sinhô)
Do coração (Sinhô, sinhô)
Porque este samba (Sinhô, sinhô)
De arrepiar (Sinhô, sinhô)
Põe perna bamba (Sinhô, sinhô)
Mas faz chorar (Sinhô, sinhô)

3 comentários:

anaïs disse...

Achei muito interessante o seu texto sobre Pelo telefone. Estou fazendo uma pesquisa sobre a recepção da mpb na França onde essa musica foi publicada em 1922, pouco depois da vinda dos Oito Batutas em Paris.
Estou procurando a gravação de Baiano afim de documentar minha tese. Você por acaso teria esse documento sonoro? [no site do IMS é impossibel abaixar as musica, infelizmente]
agradeço pela ajuda,
Abraço

Leonardo Martinelli disse...

Olá Anaïs. Sim, tenho as gravações históricas comigo e posso sim enviá-las por e-mail. Qual é o seu endereço? Abraços.

Malunchi disse...

Oi, muito bom o texto. Eu tambem estou procurando a gravação de Baiano. Voce poderia enviá-las por mail? Meu mail é ilcantosospeso@gmail.com

Muito obrigado! Abraço