08 fevereiro 2007

Entrevista com John P. Murphy

Professor de história do jazz na University of North Texas, John P. Murphy (na foto, à esquerda, com Arlindo dos Oito Baixos) realizou seu PhD. (equivalente ao nosso doutorado) sobre a festa pernambucana do cavalo-marinho, residindo por anos no nordeste brasileiro. Acadêmico, porém com intensa atividade musical, Murphy concedeu a seguinte entrevista ao Fim-de-semana (caderno da Gazeta Mercantil).

por Leonardo Martinelli

Como iniciou seu interesse pela música brasileira?

Nos anos 80, enquanto eu estava cursando etnomusicologia na Columbia University, em Nova Iorque, comecei a ouvir música brasileira, principalmente MPB e música folclórica. Fiz aulas de português e conheci dois alunos de pós-graduação brasileiros. Um deles me convidou para passar algumas semanas na casa dos pais, no Rio, e a partir daquele tempo, resolvi a estudar a música brasileira.

Você passou diversos anos no Recife, pesquisando a música local. De que forma esta experiência está presente em seus estudos acadêmicos sobre o Brasil e também em sua carreira como instrumentista?

Escrevi a minha tese de doutorado sobre o cavalo-marinho pernambucano (quem em breve será publicada no Brasil). A oportunidade de estudar uma tradição musical oral e de criar amizades com os músicos da zona da mata nordestina transformou minha relação com a música. Minha formação até aquele ponto tinha sido mais acadêmica do que “de rua”. Tinha tocado muito jazz e rock, mas eu estava começando a dar mais ênfase, no meu pensamento próprio, às idéias que estava absorvendo na universidade. Meu contato com as tradições musicais pernambucanas me permitiu a chegar a um equilíbrio entre o estudo acadêmico da música e a experiência direta da música. E ao longo dos anos conheci muitos amigos e colegas com quem estou ainda em contato.

Quais são seus referenciais acadêmicos sobre a música brasileira?

Uma parte da minha pesquisa do cavalo-marinho foi uma comparação entre a música que estava ouvindo em Pernambuco, entre 1990-91, com as gravações da Missão de Pesquisas Folclóricas, que Mário de Andrade organizou. Quando conclui que minha pesquisa foi insuficientemente “teórica”, pensei no motivo do Mário em “fornecer documentação para músico”. Tornei-me músico e musicólogo por amor à música, e não por amor à teoria.
No livro você propõe ao leitor três perspectivas analíticas.

Caso pudesse realizar um livro de maiores dimensões, modificaria este conceito?

Se eu fosse escrever um livro de maiores dimensões, gostaria de dar mais espaço à música da juventude em diversas regiões, tais como a MPB, o rock nacional, a relação entre a cultura e o meio-ambiente e a presença da música brasileira no palco mundial. No meu site coloquei muito material que foi cortado do livro.

O livro é destinado a um público não-brasileiro. Quais os cuidados que teve que tomar tendo isto em mente?

A música brasileira que mais se ouve nos EUA é o samba, a bossa nova e a MPB. Muita gente hoje em dia conhece Seu Jorge, por exemplo, porque apareceu num filme de Wes Anderson (“A vida aquática com Steve Zissou”, de 2004). Qualquer introdução à música brasileira tem que incluir este repertório canônico. Mas eu achei importante incluir a música nordestina, a indígena, a gaúcha, a caipira, o choro, a música da nova cena recifense e a música de Roberto Carlos, entre outras, para dar uma idéia mais ampla do assunto.

Na sua opnião, o que seu livro pode oferecer ao público brasileiro?

É óbvio que qualquer leitor brasileiro vai saber mais sobre um determinado assunto musical de que eu. Talvez seja interessante entrar em contato com a visão estrangeira de uma coisa que ele sabe muito bem, da mesma forma que eu gosto de ler as opiniões de Fred04, Renato Lins, Zé Teles, Siba, DJ Dolores ou Hermano Vianna sobre a música norte-americana.

Que paralelos poderia traçar entre a cultura musical popular norte-americana com a brasileira?

Nas minhas aulas da história do jazz, não apresento o jazz como uma coisa única, inédita, como escrevem muitos autores (um exemplo do chamado “American exceptionalism”). Mostro que os mesmos processos musicais e sociais que deram origem ao jazz – tais como a confluência de tradições musicais da África e da Europa, o improviso, a urbanização, a tecnologia de gravação – estavam presentes também nos no samba e no “son cubano”.

2 comentários:

PobreVirtual disse...

parabéns pelos posts...
mais uma vez fantastico...
tenho você em meus favoritos e passo por aqui sempre que dá...

se precisar de algo, estou a disposição: www.PobreVirtual.com.br

Camila disse...

Eu o conhecia há muito tempo e é uma pessoa muito interessante. Eu estava no veterinário, porque eu tive que comprar triatox e ele estava com o seu cão, porque ela estava grávida. Eu fique muito feliz por conoce-lho