08 fevereiro 2007

A música de nosso "Brazil"

Pesquisador lança o olhar estrangeiro sobre a música brasileira.

Falar da música brasileira é uma tarefa espinhosa: nossa cultural musical é ampla, compreende uma grande extensão geográfica e suas raízes históricas, apesar de detectáveis, ainda carecem de estudos mais aprofundados (além da difusão daqueles já existentes). Muitos brasileiros já se aventuraram por estas sendas tão densas e perigosas, pesquisando nichos específicos de nossa cultura musical. No entanto, mais perigoso ainda é realizar uma impressão generalista sobre esta cultura musical tão plural, e a tarefa torna-se de maior risco quando se tem como objetivo explicar a música no Brasil para uma audiência que, possivelmente, pouco conhece além dos estereótipos difundidos mundo afora, isto é, a trívia “samba, carnaval e bossa-nova”.

É justamente este o propósito do livro “Music in Brazil”, escrito pelo músico e pesquisador norte-americano John P. Murphy (leia entrevista abaixo), e que apenas recentemente está mais acessível nas livrarias brasileiras. Integrante da série de livros didáticos Global Music Series, publicados pela editora da universidade de Oxford, a série abrange diversos culturas musicais mundo afora, um segmento que se convenciou chamar de world music, e inclui títulos sobre a música em Bali, Egito, Java Central, EUA, entre muitos outros. Além dos volumes geograficamente temáticos, a coleção edita também outros dois voltados para a conceitualização teórica do assunto: “Teaching Music Globally”, de Patricia S. Campbell, e “Thinking Musically”, de Bonnie C. Wade, ambas coordenadoras da série.

É sob a perspectiva de uma obra didática que o livro de Murphy deve ser entendido. Deve-se, então, levar em conta tanto seus propósitos e público como sua diminuta dimensão (menos de duzentas páginas). Entretanto, nada disto diminui o mérito da obra, que se mantém interessante inclusive para nós, brasileiros.

Para dar conta da tarefa, Murphy – que morou no Brasil e se comunica em português com fluência – propõe três visões sobre a nossa música: 1) “Música e identidade nacional”; 2) “Música e identidade regional” e 3) “Cosmopolitismo musical”.

Na primeira parte do livro o autor detém-se sobre a questão do samba enquanto nossa “música nacional”, partindo de seus primórdios históricos e chegando até um pequeno panorama atual e multifacetado deste gênero. É ainda nesta parte do livro que explica outros gêneros ligados à identidade geral da cultura musical brasileira, tais como o chôro e a bossa-nova. Na segunda parte, Murphy se detém sobre gêneros regionais que, apesar da suposta limitação geográfica, são de suma importância no caldeirão musical brasileiro, tais como o forró, a capoeira e a música das festas religiosas nordestinas (maracatu, bumba-meu-boi, etc.). Na última parte, o autor debruça-se sobre a complicadíssima tarefa de realizar um panorama da atualidade musical brasileira e alguns de seus gêneros. Aqui o autor dá ênfase gêneros da cena musical do Recife (notadamente Mangue Beat, de Chico Science e Nação Zumbi), cidade onde o autor morou por vários anos.

Apesar da necessidade pragmática de definições claras e diretas, Murphy não conduz o leitor a uma visão unívoca dos temas que aborda, algo muita importância quando se têm em mente que o público-alvo é justamente os estrangeiros. Um ponto de relevância na obra é a boa quantidade de exemplos em forma de partitura e de análises musicais, além das amostras em audio presentes no CD que acompanha o livro. O website do autor completa a suíte de material didático. É notável o esforço do autor em explicar ao público certas minúcias de nossa cultura (como, por exemplo, quando alerta o leitor da carga de preconceito que existente no Sul e Sudeste sobre o sotaque dos nordestinos).

Mesmo tendo em conta os propósitos da obra, seu calcanhar de Aquiles é a virtual ausência de referência às atividades musicais de caráter mais “internacional” em solo brasileiro, tais como as diversas correntes do rock-pop não miscegenados, bem como do jazz e da música clássica. O caráter didático da obra torna urgente a correção do mapa do Brasil (afinal, nosso litoral não é banhado pelo Golfo do México e a capital do Acre não é “Rio Braneo”).

O livro, evidentemente, não esgota o assunto (e nem é este seu propósito), mas pode ser uma boa introdução ao universo musical brasileiro. Inclusive para os próprios brasileiros.

Serviço:
“Music in Brazil” de John P. Murphy, 173 págs. (acompanha CD).
Oxford University Press, R$ 45
Site do autor: http://web3.unt.edu/murphy/brazil/
Clique e compre! (acredite, não estou ganhando nada com isto...)

[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

Um comentário:

pedrita disse...

realmente é complexo falar de música brasileira. acho que o problema maior é querer falar da música brasileira em um livro. há tantas nuances, precisaria de uma enciclopédia. o melhor seria caracterizar um tema, como escolher um tema para mestrado e discursar só sobre ele, do que tentar falar tudo e achar que fala tudo. eu falei de proust no meu blog. beijos, pedrita