08 maio 2012

O falsificador

Com a chegada de André Rieu ao Brasil, o autoproclamado popstar da música clássica, levanta-se o debate: afinal, por que não vale a pena escutá-lo?

[Texto originalmente publicado na edição de maio de 2012 da Revista Concerto]

Por Leonardo Martinelli

No final deste mês se inicia no Ginásio do Ibirapuera, na capital paulista, a série de shows que André Rieu e sua companhia farão no país. Originalmente seriam apenas três apresentações, mas a enorme procura ampliou o número para 18, que se estenderão até o início de julho, com ingressos que podem chegar a R$ 400. A mesma dinâmica se observa em outros países, inclusive na Europa e nos Estados Unidos.

Autoproclamado popstar da música clássica, André Rieu é o protagonista de um dos maiores fenômenos da indústria fonográfica da atualidade. Para isso, ele aposta numa fórmula que vem aprimorando desde o início da década de 1990. Tudo começa com um espetáculo de forte apelo visual, no qual os principais estereótipos (reais ou imaginados) que orbitam no universo da música clássica são acentuados a ponto da total descaracterização. Cenários que remetem ao mundo mágico dos desenhos animados, músicos vestindo fraques de cortes extravagantes e musicistas paramentadas como bonecas de porcelana são elementos primordiais de um cenário dantesco.

Em segundo lugar, vem a música. Clássica ou popular, ela é invariavelmente travestida em arranjos paquidérmicos que atuam como um rolo compressor que esmaga aquilo que diferentes linguagens e estilos têm de melhor. Tudo isso é amalgamado pela própria figura de André Rieu, o anfitrião, com uma lábia simplória e um sorriso charlatanesco que arranca suspiros de sua audiência.
Rieu é apenas mais uma das crias daquilo que se costuma chamar de indústria cultural. Pensado como um grande negócio, seus espetáculos não apenas usurpam o patrimônio musical da humanidade. Pior, eles são artisticamente violentados com o propósito de ser mais “palatáveis”. E, pior ainda, dessa forma difunde-se uma ideia falsificada do que são a ópera e a música de concerto.

Há quem alegue que Rieu realiza importante contribuição ao popularizar a música clássica e que seria uma porta de entrada para este mundo. Não é verdade. Primeiro, porque o máximo que ele faz é se autopopularizar por meio da difusão do culto a sua figura (incluindo aí os mais diferentes tipos de souvenires). Sua estratégia visa a estabelecer um circuito de consumo fechado, no qual a compra de um DVD André Rieu conduz a compra de outro DVD André Rieu, e agora, para nós, a um dos caros ingressos de seus show. Nada vindo de fora é tolerado.

Em segundo lugar, é um argumento ingênuo (na melhor das hipóteses) achar que esses produtos atuam como introdução ao universo da arte. Fãs de Harry Poter não serão leitores de Shakespeare. Com o fim da série comercial de livros, ele migraram para outra, por exemplo, os volumes da “saga” Crepúsculo, e assim sucessivamente. Na prática, os atuais fãs de Rieu são as viúvas de Ray Coniff – seu famoso “arranjo” do Bolero de Ravel jamais conduziu seus fãs para a escuta da obra original.

Não se exclui a possibilidade de uma ou outra pessoa eventualmente cultivar um ambiente verdadeiramente artístico a partir do contato com esses enlatados culturais. Mas, comparado ao rastro de mau gosto e desinformação que eles deixam, é um preço alto demais a ser pago. Literalmente, pois é possível fazer coisas muito mais interessantes com a colossal quantidade de dinheiro que essas celebridades movimentam.

A propósito das desventuras literárias do famoso bruxinho, evoco aqui o termo que o crítico literário Harold Bloom usou para definir o sucesso do personagem: “desesperante”. Bloom argumenta que uma criança ou um adolescente tem plenas condições de começar sua vida de leitor com obras do mais alto valor artístico. Com a música não tem porque ser diferente. Que mal há em ouvir um Mozart, um Vivaldi ou mesmo um Johann Strauss sem a maquiagem grosseira promovida por Rieu? E olhe que não faltam no mercado produtos artisticamente honestos que propõem abordagens diferenciadas e acessíveis no amplo sentido do termo.
Apesar de desesperante, o próprio Bloom nos lembra que, ao longo da história da literatura, não faltam exemplos de grandes sucessos comerciais que logo passaram para o esquecimento. É a esperança que resta.

14 comentários:

Raul Concer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

se vc prefere ouvir michel teló, paciência.se você não sabe fazer melhor, pelo menos RESPEITE o trabalho dos outros, ninguém é obrigado a ouvir Andre Rieu,comprar seus dvds,ir ao seu concerto,vai quem quer!rs ele é simplesmente um cara esperto que faz o trabalho dele e a população compra muito bem.
e ali em baixo, não fale assim de quem já leu Harry Potter, porque gostar da série não impede NINGUÉM de ler Shakespeare,tanto que já li toda a obra dele. não seja ignorante,não generalize.
Talita Fernandes

Anônimo disse...

e se vc apagar meu comentário, vou saber que você é o tipo de pessoa que não aguenta uma critica.

Cristiano Ventura disse...

Qualquer pessoa que aprenda violino por 1 ano toca melhor que o Andre Rieu :-)
Ele me faz lembrar Família Lima

Salvatore disse...

Muito bom o artigo, ainda bem q ainda existem pessoas que se preocupam com a lucidez do povo, mesmo sabendo q é tão difícil lutar contra o marketing da indústria cultural. Li as críticas ao artigo e vi o quanto as pessoas que o criticaram não tem conhecimento nenhum sobre filosofia, sociologia e psicologia da música. Comentários como: "gosto não se discute", ou ainda: "Rieu oferece as músicas e as pessoas é q querem comprar", demonstram o nível de desconhecimento sobre o assunto. Gosta-se apenas do que se conhece. Pra dizer que não há influência externa no gosto de uma pessoa, tal pessoa deveria conhecer o máximo de estilos e gêneros musicais. E o que se conhece de música pela maioria das pessoas é o que é imposto pela indústria cultural como é feito com a música de Rieu. Não há problema nenhum em ter sucesso, e Martinelli nao está com inveja (pelo amor de Deus ahahah). O problema não é o sucesso , e sim a fórmula musical barata com roupa de sofisticada com intuito de vender $$$$ é q é o problema. A enganação é o problema, enquanto grandes músicos desse país ficam em seus quartos estudando, pois sua música de qualidade não é vendida pela mídia. A mídia não quer que seu produto provoque reflexão, senao não há mais como ser enganado por ela. Música popular ou erudita outra coisa. Rieu está abaixo do funk carioca pra mim. Mas ouvir um Beethoven bem tocado por gente séria na sala São Paulo é bem melhor que ouvir funk. Minha opinião, apenas.

Anônimo disse...

Acho que pelo jeito você gosta de ouvir tanto Michel Teló quanto André Rieu. O Leonardo não está desrespeitando ninguém, só informando, para que a pessoa possa escolher por livre e espontânea vontade se quer continuar ouvindo fingimento de música ou vai enfim procurar música de verdade.

www.ouvirmusicaonline.com disse...

Acho que tem muitos gosto e eu adoro ouvir musica online e acho que tem que ter letra.Parabéns

Unknown disse...

EU GOSTO DE ANDRE RIEU, PRINCIPALMENTE A APRESENTAÇÃO DELE NA ITÁLIA.ENTRETANDO, PELO QUE VI NO YOUTUBE NÃO GOSTEI. ACHEI QUE A APRESENTAÇÃO AQUI NO BRASIL FOSSE MUITO BOA.ELE SÓ FEZ REPETIR O QUE SE VE NOS SEUS DVDs. NADA DE NOVO. COMO ELE FEZ EM ALGUNS PAISES.NADA CONTRA TOCAR MICHEl TELÓ, MAS PORQUE NÃO O GUARANI, ENTRE TANTAS MUSICAS LINDAS DO BRASIL. INCLUSIVE ROBERTO CARLOS, PORQUE NÃO.SINCERAMENTE? ESTAVA TRISTE POR NÃO TER PODIDO ASSISTIR, AGORA NÃO ESTOU MAIS. ACHO QUE TODO MUNDO PENSA, QUE PARA BRASILEIRO QUALQUER COISA SERVE.PARECE QUE SOMOS UNS TAPADOS

Marcia Degani disse...

Concordo. O problema é vender uma coisa com o rótulo de outra. O Andre Rieu faz cultura de massas descaradamente e vem ganhar dinheiro num país inculto contribuindo para que as pessoas acreditem que estão consumindo música erudita de qualidade. A música que ele fazia era o clássico ligeiro (as valsas - até tinha uma coerência), passou para o popular arrumadinho (tema de filme) e agora está fazendo música chinfrin. Tá na cara que é um pavão a fim de levar um bom trocado dessas terras tropicais... Mas por outro lado, só faz sucesso porque tem gente que gosta e paga. Se a pessoa quer gastar "400 mango" pra assistir o show dele, paciência... Mal gosto não se discute. É a fórmula dele e ele mostra através do repertório o que pensa de nós.

Lucas henrique disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dematsu Réplicas disse...

Relógios Famosos é na Dematsu..,.,

www.dematsu.com.br

Anônimo disse...

onde quer que eu ache esse texto, vou reclamar da sua implicância com Harry Potter... rsrsrs
Abraço do Dalmo...

Dito Inacio disse...

Parabéns Leonardo. E nao ligue pra torcida. Eu me preocuparia se todo o mundo estivesse de acordo com você... A excelência é minoria. Nao somos legiao, meu amigo! De acordo com cada palavra sua!

www.ditoinacio.blogspot.com

Lemos... disse...

Parabéns pelo artigo, eu gostei.
Achei muito justa a crítica, mas infelizmente a indústria cultural é algo incompreendido pela grande parte da população.

Tenho um blog sobre música, no intuito de ajudar estudantes de música, se quiser faça uma visita:

http://musicaprende.com/