05 agosto 2006

Apoteose da juventude

Concerto de encerramento do Festival de Campos do Jordão revela toda a força dos jovens músicos clássicos.


Para o simples espectador, pode parecer apenas mais um concerto, mas para cada músico presente no palco era o capítulo final de uma jornada de três semanas de convívio intenso com a música e seus caprichosos caminhos. Foi no último domingo, na Sala São Paulo, que foi realizado o último concerto do 37º. Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, com sua Orquestra Acadêmica – integrada por bolsistas e professores do festival – dirigida por Roberto Minczuk. Não foi um encerramento, mas sim uma verdadeira apoteose da juventude musical. Se de um lado falta experiência, do outro sobra paixão e entrega, e em arte é justamente isto o ponto diferencial do comum para o extraordinário.

Se problemas sempre há, extraordinária foi a capacidade da orquestra em colocá-los em segundo plano, eclipsados por sua beleza sonora, por sua empolgação. Diante de um grupo tão forte, a obra “Ritmetrias – Variações rítmicas sobre um metro contínuo” do Edino Krieger – compositor residente do festival que escreveu esta obra especialmente para a ocasião – soou um mero diletantismo, uma tarefa burocrática muito aquém da empolgação presente nestes jovens artistas.

Mas eles tiveram seu momento para mostrar a que vieram, e ele ocorreu ao longo dos seis movimentos da suíte “O Pássaro de Fogo”, de Igor Stravinsky (obra na qual a presença de estudantes foi mais maciça, especialmente nos sopros). Desde as sutilizas tímbricas e as nuances dinâmicas exploradas em números como “Ronda das princesas” até a energia rítmica da “Dança infernal” estava tudo lá, com capricho e entrega.

Apesar da execução da obra de Stravinsky já ter valido a noite, a “Sinfonia No. 4” de Piotr Tchaikovsky foi também outra boa surpresa, com a orquestra mostrando-se apta a superar grandes desafios musicais e técnicos, como nos pizzicati do terceiro movimento (quando os instrumentos de cordas deixam de tocar com o arco, tocando o instrumento como num violão). Tudo sempre sob a regência igualmente entusiasmada de Minczuk, que regeu todo o concerto de cor. O registro desta verdadeira festa poderá ser conferido no início do ano, para quando está previsto o lançamento do CD do festival.

Ao final deste concerto-celebração, foi anunciada a temática do festival do ano que vem, que será totalmente voltado para as mulheres. Ainda cercado de indefinições, resta-nos a esperança da oportunidade de finalmente ouvirmos grandes musicistas de nosso tempo e compositoras como Barbara Strozzi, Clara Wieck, Alma Mahler, Marisa Rezende, Galina Ustvólskaia, Jocy de Oliveira e Kaija Saariaho. Quem sabe?

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