20 abril 2007

A ópera sob o ecletismo brasileiro

XI Festival Amazonas de Ópera estreará obra de Edmundo Villani-Côrtes

Hoje, inicia-se em Manaus o XI Festival Amazonas de Ópera (FAO). Entre diversos espetáculos, algo de suma importância para a nossa cultura musical: a estréia encenada de uma ópera composta por um compositor brasileiro em plena atividade criativa. Trata-se de “Poranduba”, de Edmundo Villani-Côrtes (ver detalhes na matéria abaixo).

Aos 76 anos de idade, Villani (como é conhecido) é, até hoje, um incansável artesão da música. Em sua agradável casa na zona norte paulistana os armários e estantes de seu estúdio estão abarrotados de partituras que ele produziu ao longo de décadas de intensa atividade musical.

Com um estilo musical todo próprio – que mistura elementos da música clássica universal ao da música popular urbana brasileira – Villani faz questão de chamar sua arte de “simples e despretensiosa”. Curiosamente, talvez tenha sido justamente esta desprentensão que, por fim, faz de Villani um dos compositores brasileiros vivos mais tocados na atualidade. Suas músicas são regularmente executadas em concertos e podem ser encontradas em diversos CDs lançados nas últimas décadas (o mais recentemente é o álbum que o Grupo AUM gravou, incluindo a obra “Postais Paulistanos”, vencedora de um APCA).

Natural de Juiz de Fora (MG), Villani é músico eclético, respeitadíssimo tanto como músico popular como compositor erudito. Ainda muito jovem foi estudar piano Rio de Janeiro, onde estava longe de se encaixar no perfil padrão do Conservatório Brasileiro de Música. Além de sequer possuir um instrumento onde pudesse estudar (em casa, era obrigado a digitar as peças sob uma mesa comum), Villani atravessava as madrugadas tocando na noite carioca.

Esta dupla existência musical conferiu ao jovem compositor uma habilidade criar músicas de diversos climas e estilos musicais, algo fundamental em sua ampla produção como arranjandor de TV, tendo trabalhado para Tupi, Globo e no SBT, onde foi o primeiro pianista do conjunto musical do talk-show de Jô Soares.

em São Paulo, paralelamente à vida prática da música, Villani ingressou como professor no departamento de música da Unesp, onde viria se aposentar na década passada. Mas aposentadoria definitivamente é uma palavra que não combina com este artista, tendo em vista que em sua escrivaninha há, empilhadas, uma série de músicas em franco processo de elaboração.

É na expectativa da primeira encenação de sua ópera “Poranduba”, no XI FAO, que Villani recebeu a Gazeta Mercantil para um descontraído bate-papo musical.

Em sua linguagem composicional você freqüentemente utiliza elementos música popular brasileira, e muitos o associam à corrente Nacionalista, tendo inclusive sido aluno de Camargo Guarnieri. Afinal, como você entende sua música?

A composição pra mim sempre foi apenas um meio de me expressar. E ao ouvir as músicas dos outros, algo que gostasse, sempre desejei em fazer algo parecido ou mesmo melhor. E aí me dedicava a estudar, a entender aquela música. Talvez seja uma atitude quixotesca de minha, mas acontece que o que componho é o resultado de uma necessidade de expressão. Algumas vezes esta forma de expressão me leva a fazer uma música mais dissonante em função daquilo que quero expressar. Às vezes faço uma coisa muito simples. Mas nunca fui de prender-me a uma escola. Em relação ao Nacionalismo, nunca estudei nada de folclore, nunca pesquisei nada e não me considero um Nacionalista. Se eventualmente os recursos que utilizo coincidem com esta escola é algo puramente casual. E mesmo meu relacionamento com Camargo Guarnieri foi muito breve. Tive poucos meses de aula como ele, pois tive que interromper meus estudos para ganhar a vida como pianista de música popular.

Como você vê as tendências da música de vanguarda da atual?

Eu me vejo de uma maneira muito simples. A pessoa que tem talento é que nem erva daninha: você corta aqui, ela nasce logo adiante. Não adianta querer destruí-la. Quando a pessoa tem talento ela pode fazer qualquer tipo de música. Não tem estilo que vai limitá-la. Tem compositores que como não têm muito o que dizer abraçam a composição apenas como status cultural, ficam se preocupando em achar qual escola está na moda. Acho inclusive que existe muita gente fazendo isto.

O que tinha em mente ao compor a música para “Poranduba”?

Acho que o mais importante é que a música que coloquei nesta partitura é uma visão minha, particular e imaginada de música amazônica. Eu não ia cometer a loucura de entrar na floresta, ouvir os cantos da Amazônia e viver na floresta para pode fazer uma ópera, pois de jeito algum iria conseguir entrar no verdadeiro espírito de um indígena. O índio que coloquei nessa ópera é um índio que tenho dentro de mim, e vou fazer a música deste índio do meu jeito. Podem até me acusar de que infidelidade ao material folclórico, mas é também falso pegar um material destes e fazê-lo de uma forma diferente da originalmente realizada por estes povos. Procurei extrair um primitivismo de mim mesmo, e acho que foi mais ou menos isto que Stravínski fez com a “Sagração da Primavera”, isto é, baseado mais nas vivências pessoais dele do que de fato realizado utilizando materiais provenientes dos povos antigos aos quais o balé se refere.

Foto: Romualdo Ribeiro.

[Este texto é a versão do autor para o artigo semelhante publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição e sem revisão!!!]

Tempo de ópera no Amazonas

Principal evento brasileiro do gênero, o 11º. Festival Amazonas de Ópera inicia hoje suas apresentações.

Começa hoje, na cidade de Manaus, a décima primeira edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO), evento referência no cenário nacional e que gradualmente vem conquistando espaço na cena internacional, que desde 1999 está sob a direção artística do maestro Luiz Fernando Malheiro. Ao longo de sua trajetória não só belas montagens e grandes vozes foram levadas ao palco do Teatro Amazonas: paralelamente aos seus méritos artísticos, o FAO foi o vagão condutor da profissionalização, ainda em desenvolvimento, da produção operística numa dimensão que o Brasil jamais havia conhecido.

Apesar da solidez de sua dimensão artística, o FAO vive atualmente um delicado momento em decorrência das mudanças na política cultural do Estado do Amazonas. Soma-se a isto a resistência das empresas da Zona Franca de Manaus em concretizar o patrocínio ao festival, ainda que por meio de leis de renúncia fiscal que, teoricamente, não acarretariam nenhum ônus significativo.

A conseqüência mais perceptível destes reveses é a redução do número de montagens de ópera. No ano passado chegou-se anunciar para a edição deste ano o “Don Carlo”, de Verdi, “A Filha do Regimento”, de Donizetti, e “Andrea Chenier”, de U. Giordano. A solução para evitar os buracos acarretados com estes cortes foi a programação de uma série de concertos e recitais líricos que, à parte o interesse artístico que eles suscitam, constituem um corpo por vezes estranho em um festival de ópera.

Mas à parte as turbulências na esfera burocrática o FAO traz este ano diversos espetáculos que valem a pena serem conferidos. Entre montagens de ópera e concertos, a capital manauense torna-se a própria capital da música clássica brasileira.

Ópera soviética no calor da floresta

Apesar do número diminuto de espetáculos operísticos, este ano festival proporciona ao seu público a estréia de dois títulos, um em âmbito nacional e outro internacional. Somando-se a montagem original de “O Navio Fantasma”, de Wagner, que o FAO incumbiu ao diretor alemão Christoph Schlingensieff, o evento leva pela primeira vez aos palcos brasileiros Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, do compositor russo Dmítri Shostakóvitch.

Composta nos primeiros anos da década de 1930 (quando Shostakóvitch contava apenas com 24 anos), a ópera tornou-se um marco na história da música não apenas pelos méritos artísticos de sua sofisticada escritura musical, mas também pela repercussão política que ela suscitou.

Por conta das críticas latentes às contradições da vida e governo soviéticos – bem como a uma evidente caricaturização de seu líder, Stálin, por meio de um dos personagens da ópera – Shostakóvitch foi publicamente repreendido por meio do artigo “Caos em lugar de música” publicado no jornal oficial Pravda. Parte da autoria é atribuída ao próprio Stálin, e os efeitos desta repreensão à carreira do compositor seria o ponto de partida de um conflito entre as duas maiores personalidades da URSS de então que seria acompanhada com interesse pelo ocidente.

No festival esta difícilima ópera será conduzida por Luiz Fernando Malheiro, e terá como protagonistas o baixo Oleg Melnicov e a soprano brasileira Eliane Coelho, que desde o ano passado se dedica ao estudo do idioma russo para conseguir voz à densa Katerina Izmáilova. Trata-se de uma oportunidade a alta complexidade musical e cênica desta que é uma das grandes óperas do século XX.

O lírico e as lendas do Amazonas

Outra ocasião importante prevista no FAO deste ano é a estréia mundial da ópera “Poranduba”, de compositor Villani-Côrtes (leia matéria acima). “Poranduba” nasceu a partir de uma prosposta realizada, em 1995, pela escritora Lúcia Pimentel Góes, autora que se dedica intensamente ao estudo e à produção de literatura infanto-juvenil. Foi a partir desta atividade que Góes entrou em contato com diversas estórias e lendas amazônicas, que um dia resolveu colocá-las em forma de um libretto de ópera. Poranduba é contador de histórias que guiará o público por entre as espessuras mágicas da floresta amazônica, seus seres e seus povos.

A improbabilidade de uma ópera brasileira ser estreada fez com que Villani só recentemente finalizasse a orquestração da partitura. Antes da proposta do FAO em encená-la, a música existia apenas em forma de canto e piano, da qual apenas algumas árias eram interpretadas em concertos de câmara.

A estréia de óperas brasileiras é um passo importante, mas, infelizmente, ainda raro (recentemente, apenas a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo levou adiante um projeto destas dimensões, com “A Tempestade”, de Ronaldo Miranda). Certamente é um dos caminhos que o FAO poderia percorrer com muita desenvoltura. Para isto, é necessário apenas dar as condições para a caminhada.

Serviço
XI Festival Amazonas de Ópera
- 20 de abril, 21h, Espetáculo de Abertura.
- 22 e 25 de abril, “O Navio Fantasma”, de Richar Wagner.
- 25 e 26 de abril, concerto com a Orquestra Petrobrás Sinfônica.
- 29 de abril, concerto “Homenagem a Maria Callas”.
- 6, 8 e 13 de maio, “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Dmítri Shostakóvitch
- 15 de maio, “A Sagração da Primavera”, balé de Igor Stravínski, com a Cia. de Dança do Amazonas.
- 16 de maio, concerto lírico com baixo Oleg Melnicov.
- 20, 22 e 24 de maio, “Poranduba”, de Edmundo Villani-Côrtes.
- 26 de maio, concerto de encerramento com a soprano Nuccia Focile.

[Este texto é a versão do autor para o artigo semelhante publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição e sem revisão!!!]

13 abril 2007

Minczuk na idade do lobo

Regente brasileiro de maior destaque no exterior, Minczuk celebra seus 40 anos em intensa atividade mundo afora.

No final deste mês, mais exatamente no dia 23, o maestro Roberto Minczuk completará quarenta anos de uma vida que ainda tem muito o que oferecer à música e aos seus admiradores. Tido pela crítica especializada e pelo público brasileiro como o melhor regente brasileiro desde o mítico Eleazar de Carvalho (1912-1996) – com quem, aliás, teve suas primeiras aulas de regência – Minczuk parece mesmo seguir os passos traçados pelos grandes regentes da cena mundial. Desde os tempos de menino prodígio até a apresentação à frente dos principais grupos orquestrais do planeta, a trajetória musical de Minczuk é exemplar e inspiração para as novas gerações por ora incubadas nas escolas e conservatórios brasileiros.

Natural da capital paulista, Roberto nasceu numa família de músicos. Seu pai integrou o corpo musical da Polícia Militar de São Paulo, e seus irmãos também se profissionalizaram enquanto músicos clássicos. Porém, o cerne desta devoção musical encontra-se, num primeiro instante, na devoção religiosa: nascido em meio à comunidade russa e eslava do bairro paulistano da Vila Prudente, Minczuk começou sua educação musical nos cultos da Assembléia de Deus Russa, onde tocava trompa.

Aliás, foi com este instrumento a tira colo que Minczuk deu os primeiros passos que o levaria a uma carreira internacional admirável. Ainda adolescente foi agraciado com uma bolsa de estudos da Julliard School, em Nova Iorque (ainda hoje um dos principais centros de excelência musical do mundo). Lá o jovem músico entrou em contato com as principais personalidades da cena clássica internacional, e foi lá onde conheceu um personagem fundamental em sua trajetória: o maestro alemão Kurt Masur.

Foi por intermédio dele que Minczuk, com apenas 20 anos, foi tocar na mítica orquestra do Gewandhaus de Leipzig, na Alemanha (na ocasião, Minczuk era o único estrangeiro do grupo). Foi a partir de seu contato com Masur que ele percorreu os passos da sua profissionalização enquanto regente.

Porém, foi em Brasília, frente à orquesta da UnB, que Minczuk ergueu profissionalmente sua batuta pelas primeiras vezes. Pouco tempo depois ele retornaria ao seu Estado natal, onde dirigiu a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, tempos de intensa atividade musical nesta cidade. Em 1997 Minczuk assumiu o cargo de diretor artístico adjunto e regente associado da Osesp, e ao lado de John Neschling, seria um dos pilares de sustentação do projeto “Nova Osesp”.

Quase ao mesmo tempo Minczuk foi aprovado no concurso para regente assistente da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, no qual os próprios músicos da orquestra votaram por sua escolha. Foi neste grupo que realizou sua estréia internacional e o início de uma nova etapa de sua carreira, que no momento se alterna entre as orquestras que dirige (a de Calgary, no Canadá, e a Orquestra Sinfônica Brasileira – a OSB – no Rio) e as quais se apresenta como convidado (a mais recente, a Orquestra Nacional da França, cujo concerto está resenhado neste especial).

Soma-se a tamanha atividade a direção do Festival de Inverno de Campos do Jordão, o principal evento do gênero no país, que sob sua coordenação reencontrou de forma plena sua principal vocação, isto é, a formação de músicos de excelência.

Casado e com quatro filhos que já trilham os primeiros passos nas veredas musicais, Minczuk faz questão de mostrar que ainda há muito o que pode e o que quer fazer. Afinal, a vida apenas começa aos quarenta.

Serviço MINCZUK NO BRASIL São Paulo: Concerto com a OSB e o pianista Arnaldo Cohen em 18 de abril, 21h, no Teatro Alfa. Rio de Janeiro: Concerto com a OSB e o violonista Yamandú Costa em 28 de abril, 21h, no Theatro Muncipal do Rio de Janeiro.

Leia a entrevista que o maestro Roberto Minczuk concedeu e a crítica do concerto de sua estréia parisiense, realizada por Tatiana Catanzaro.

[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

12 abril 2007

Entrevista: Roberto Minczuk

Ainda muito jovem você realizou seus estudos em uma das mais conceituadas escolas de música do mundo, a Julliard, em Nova Iorque. Como avalia esta experiência?

Foi fantástico. Quando eu estudava na Escola Municipal de Música de São Paulo eu me lembro que eu e meu irmão Arcádio éramos os únicos com ouvido absoluto. Na Julliard pelo menos metade da classe tinha ouvido absoluto. E eu tive como colegas grandes nomes da música atual. Lá você acaba sofrendo um choque de alto impacto musical que não há como não ser absorvido.

Como tem sido seu trabalho frente à OSB?

A experiência tem sido fantástica que vivo desde 2005. É um grande desafio, mas é um desafio maior é de sempre fazer música bem feita, de fazer jus a este repertório maravilhoso. Evidentemente que precisa ser criada condições para tornar isto viável, dar uma infraestrutura para que a orquestra funcione bem, pois orquestra é sinônimo de qualidade.

É pública a admiração que o maestro Kurt Masur tem por você. Como é o trato com este que é um dos grandes gigantes da regência mundial?

Ele é um mentor, uma pessoa que admiro e com quem aprendi muito. Todo artista tem uma pessoa que dá parâmetros e modelos. Tive vários mentores, é evidente. Mas o Masur, antes de mais nada, é uma pessoa maravilhosa. Uma pessoa que com todo seu conhecimento e fama é muito acessível e humana. Aprendi com ele que a música vem em primeiro lugar, que o importante é compositor, a obra. É uma coisa sobrenatural, religiosa mesmo! E cada momento que passo com ele estou sempre aprendendo.

Atualmente você dirige a OSB, a Filarmônica de Calgary e coordena o Festival de Campos do Jordão, além de realizar muitos concertos como regente convidado. Como consegue lidar com tantas coisas diferentes?

Não é fácil, tem que fazer malabarismo, viajar bastante e se privar de muita coisa (a que mais faz falta é a minha família). Mas por outro lado é bom, pois na verdade é um sonho que se realiza. É uma rotina que um maestro internacional tem e trata-se de uma opção de carreira que fiz e que tenho o privilégio de ter. Mas ao mesmo tempo que cansa é também um combustível. O pessoal pergunta no final do concerto se estou cansado e digo quenão, digo que faria de novo. Poderia ter duas seções seguidas que regeria com a mesma energia.

[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

Um Brasil cheio de frescor*

Em sua estréia em Paris, Minczuk desvela, sem ufanismos, o Brasil sinfônico.

* Escrito por Tatiana Catanzaro, desde Paris (França), em colaboração especial para a Gazeta Mercantil

No último dia 5 quem compareceu ao Théâtre des Champs Elysées teve a oportunidade de se deparar com uma visão absolutamente original e sem nenhum ufanismo de um Brasil sinfônico cheio de frescor de vitalidade. Tratava-se da estréia parisiense do maestro brasileiro Roberto Minczuk à frente da Orquestra Nacional da França (cujo regente titular é o mentor musical de Minczuk, o maestro Kurt Masur).

Dentro desse ideário, as duas peças de caráter mais brasileiro (“O Boi no Telhado” de Darius Milhaud e o “Uirapuru” de Heitor Villa-Lobos), faziam supor um tom absolutamente nacionalista e sem muita vivacidade. As obras circundaram o imaginário dos Années Folles de Paris, uma escolha histórica que trazia, lado a lado, estéticas tão distintas quanto Igor Stravinsky e Francis Poulenc. Mesmo assim, o concerto teve uma forte unidade estética: a do ecletismo. Foi este aspecto que marcou a interpretação de todo do espetáculo.

A abertura do concerto ficou por conta do famigerado “Boi” de Milhaud [na foto à esquerda], escolhido provavelmente não apenas por representar a idéia de um francês sobre o Brasil, como por ter tido a sua estréia em 1920 exatamente no mesmo teatro. Essa obra mostrou, ao agregar uma orquestra de franceses e um regente brasileiro, a alquimia exata de uma execução, se não perfeita (por haver pequenos problemas de afinação e de precisão dos ataques), extremamente rica: o olhar estrangeiro de toda uma orquestra (que, com a falta da malícia do gingado dos ritmos sincopados brasileiros, gerou o estranhamento necessário frente à obra), fundido às cores límpidas e cheias de volumes impressas pela maestria da regência de Minczuk.

A segunda peça, “Concerto para dois pianos e orquestra” de Poulenc [foto à direita], contou com o toque excepcional das irmãs Labèque. Impressionante o grau de fusão entre a forte concepção estética das pianistas e da orquestra, o que demonstra a sensibilidade acurada do maestro em captar o mundo que elas criaram para Poulenc e retransmiti-lo para os demais músicos. Uma interpretação extremamente delicada das irmãs, que demonstraram não apenas conhecer a obra, mas ter-se realmente apropriado dela como se fosse já parte delas mesmas. Uma compreensão profunda e amadurecida de todo o seu significado musical: seus fraseados sutis, as diversas sonoridades extraídas do piano para garantir os diversos estados de espírito, as duas pianistas quase como uma só a quatro mãos. O relevo, se no “Boi” foi dado pelos diversos coloridos extraídos da orquestra, nessa peça foi dado pelas solistas, a orquestra permanecendo mais monocromática, num equilíbrio genial alcançado por Minczuk.

O esplendor da orquestra alcançou seu auge com o “Uirapuru” de Villa-Lobos [foto à esquerda]. Apesar de Villa ser o compositor mais evidente na escolha do repertório, a eleição da peça, pouco conhecida mesmo entre os brasileiros, deu um novo significado à presença de Villa-Lobos no concerto. A orquestra pode deleitar-se em seus inúmeros solos orquestrais, graças à grande liberdade sustentada por Miczuk que, apesar de imprimir fortemente a sua visão sonora da peça, manteve o espaço para que cada um dos solistas pudesse expor, igualmente, suas próprias visões, seus tempos, seus rubatos, seus fraseados. Essa simbiose gerou uma flutuação delicada e trouxe ao Uirapuru uma leveza e uma clareza peculiares.

“O Pássaro de Fogo”, de Stravinsky [foto à direita], fechou o concerto dignamente, embora um pouco ofuscado pela lembrança do “Uirapuru” e das irmãs Labèque. De toda forma, uma ótima execução, com grande vitalidade, mesmo que também com problemas de precisão nos ataques (problema este que percorreu pontualmente todo o concerto).

O público saiu, certamente, com uma visão positiva do Brasil, tanto por causa do refinamento da concepção trazido pelo regente quanto por causa da escolha hábil do repertório do concerto. Sutilmente, através de um repertório relativamente previsível, Minczuk conseguiu trazer à tona, de forma paradoxal, a questão do que é realmente o Brasil e da idéia que outras culturas fazem do Brasil, e mostrar, assim, um Brasil sem exotismo, sem ufanismo, e cheio de vigor.

[Texto escrito por Tatiana Catanzaro. Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

29 março 2007

"Abraçai-vos, milhões!"

Presença constante em nossas temporadas, a “Nona Sinfonia” de Beethoven continua levando multidões aos teatros brasileiros.

Pouco depois das dez da manhã de um domingo ensolarado já havia uma intensa movimentação no Theatro Municipal de São Paulo. Na escadaria do prédio o vendedor de doces e cambista dizia a uma senhora: “concerto que nem o de hoje não tem mais ingresso não”. Desolada, a senhora continua no boca-a-boca sua busca por um ingresso.

Não seria uma tarefa fácil, pois o que em poucos minutos seria levado ao palco é uma das mais importantes obras da história de música universal e uma das que mais arrasta audiências para as salas de concertos brasileiras, isto é, a “Sinfonia No. 9, em Ré Menor, Opus 125” do compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827). Ou simplesmente a “Nona de Beethoven”, como é tratada de forma mais íntima por todos aqueles que presenciaram as diversas apresentações da obra no Rio e em São Paulo.

E não foram poucas as apresentações. No ano passado testemunhou-se uma verdadeira avalanche de “Nonas” com diferentes orquestras brasileiras nos mais diferentes cantos do país. Seja na versão integral, ou apenas com seu famoso “Ode à Alegria”, a obra máxima de Beethoven continua a ser uma das prediletas do público brasileiro.

O sublime em música

Composta entre os anos de 1818-24, a “Nona” foi mostrada pela primeira vez ao público no mesmo ano de sua conclusão. Uma vez assimilado o impacto inicial, esta obra foi aos poucos ganhando projeção na Europa e no Novo Mundo, adentrando o século XX com o status de obra obrigatória no repertório de qualquer grupo que se pretenda intitular como “orquestra sinfônica”.

Apesar de um sem número de trabalhos acadêmicos dedicados a esta obra prima, não é possível identificar uma causa única ao seu sucesso. É o que defende o músico e pesquisador Daniel Bento, autor de um dos poucos livros dedicado a Beethoven escrito e publicado por um brasileiro. “A ‘Nona’ é um dos mais expressivos exemplos de peça apreendida por seus contempladores em qualquer nível de fruição que se esteja disposto a adotar. Ou seja, proporciona ao músico um trabalho infinito de descoberta; mas também garante uma experiência inigualável ao ouvinte que simplesmente aprecia Beethoven sem saber por quê”.

Este amplo apelo da peça refletiu-se no heterogêneo público que lotou o Municipal paulista domingo passado, ocasião na qual a “Nona” foi interpretada pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, conduzida pelo maestro José Maria Florêncio.

Arte para todos

“Abraçai-vos, milhões!”. Este é um dos versos de Friedrich Schiller (1759-1805) que Beethoven utilizou em um dos movimentos da peça. Literalmente, as apresentações da obra congregam pessoas dos mais diferentes perfis, desde o músico profissional até aqueles que estão iniciando na apreciação musical. Muitos destes adoradores da “Nona” perseguem, em grupo, as mais diferentes apresentações, contrastando as versões ao vivo com alguma gravação que lhes sejam caras (as que o mítico maestro Hebert von Karajan realizou na década de 60 é ainda uma das mais citadas).

Já nos corredores do teatro, um grupo de adolescentes esperava com ansiedade para o início do espetáculo. “O grêmio da escola ficou sabendo do concerto e resolveu organizar uma excursão”, diz o estudante secundarista Tiago Siqueira, admirador confesso desta sinfonia a ponto de cantarolar um pequeno trecho da obra, que veria ao vivo pela primeira vez. Ele e mais algumas dezenas de jovens percorram de ônibus os 85 km que separam sua cidade, Valinhos, dos pórticos do Municipal paulistano. Outra que debutava na “Nona” era a pianista Liliane Kans, que entre os incontáveis concertos que já ouviu e tocou ao longo da carreira, nunca tinha tido tempo para apreciar esta peça ao vivo.

Entretanto, não só de marinheiros de primeira viagem estava tripulada a nau beethoveana. Figura sempre presente nas salas de concertos Irene Fuhrmeister confessa ser fã da obra. “Semana passada fui ver a Osusp tocar esta peça e estou aqui para ouvi-la novamente. É uma obra muito querida para mim”.

Outro veterano em “Nona” que prestigiava esta apresentação foi o maestro Abel Rocha. Regente da Banda Sinfônica do Estado e do Coral Collegium Musicum, só no ano passado Rocha preparou seu coro para cantar a “Nona” em sete apresentações diferentes. “É uma peça que sempre atrai muita gente” diz o maestro, instantes antes de presenciar mais uma apresentação da obra (agora apenas enquanto público).

Desafio profissional

Após a empolgante apresentação - apesar de musicalmente irregular (sincronia, cortes, coesão tímbrica entre os naipes...) - público, instrumentistas, cantores e solistas se acotovelavam nos estreitos corredores dos camarins do Municipal. No fundo, todos estavam lá para se confraternizar. Somando-se ao maestro, os solistas do quarteto vocal previsto na partitura eram os alvos mais assediados para as congratulações da audiência. O tenor Fernando Portari, que há anos participa das principais montagens desta obra no Brasil, exclamava entusiasmado “estou pronto pra outra!”. Quando questionada se já não enjoara de cantar tantas vezes a obra a soprano Rosana Lamosa afirma com alegre serenidade: “Cada apresentação é diferente. Sempre acontece uma coisa nova”. Outro veterano na “Nona”, o baixo Lício Bruno recebia os cumprimentos, que dias antes recebeu ao se apresentar com a mesma peça em Bogotá, na Colômbia.

Todos se lembram com emoção de sua primeira vez com a “Nona”. E domingo passado era esta a situação da mezzo Denise de Freitas. “É emoção muito grande, todo aquele público cantarolando com você, te olhando emocionado”. Sua colega Gabriela Pacce, que recentemente também estreou como solista na peça, fez coro aos sentimentos de Denise.

Apesar de uma análise mal-humorada nas temporadas dos últimos anos fazer parecer até tediosa a presença tão constante desta peça, basta que as primeiras notas da peça ressoarem pelo teatro para, então, termos novamente a certeza que cada escuta da “velha Nona” é sempre um experiência única e renovadora.

Ilustrações: 1) Retrato de Beethoven; 2) Manuscrito da Sinfonia No. 9.

[Este texto é a versão do autor para o artigo semelhante publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição e sem revisão!!!]

24 março 2007

Clássicos pelo Brasil

Uma pequena análise da temporada 2007

Apesar de março ser o mês no qual oficialmente se inicia a temporada clássica brasileira, é mesmo a partir de abril que a coisa começa a esquentar nas salas de concertos do país. E a coisa promete mesmo esquentar: para este ano a platéia da música concerto será brindada com uma grande diversidade de repertórios e com formações musicais dos mais diferentes estilos e países.

Apesar de a maior parte dessas atrações estarem concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo quem estiver em outras partes no Brasil não ficará desamparado de música. Basta ficar de olho na programação cultural, que nem sempre são divulgadas com a antecedência necessária.

A megalópole sinfônica

A aglomeração urbana entre Rio e São Paulo é mesmo oásis da música sinfônica brasileira. Apesar das temporadas e dos concertos esporádicos existentes em outras capitais brasileiras – tais como Manaus, Belém, Aracaju e Belo Horizonte, entre outras – é mesmo na megalópole do Sudeste onde se pode encontrar de forma mais regular concertos de ótima qualidade artística e repertório variado.

No Rio a cena sinfônica tem suas atenções divididas entre a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), dirigida por Roberto Minczuk, e a Orquestra Petrobrás Sinfônica (OPS), dirigida por Isaac Karabtchevsky. Cada qual com uma atração diversificada, as orquestras cariocas, entretanto, trilham caminhos diversos. A OPS aposta muitas de suas fichas em Beethoven, que ganhou nada menos que cinco programas exclusivos.

Por sua vez, a OSB investe na excelência de seu regente e em convidados de renome na cena clássica, tais como o maestro Kurt Masur, o violinista Pinchas Zukerman, o pianista Nelson Freire e a soprano Eliane Coelho. Isto não quer dizer que a OPS não tenha seus convidados de peso: entre as atrações mais aguardadas está o retorno do compositor e maestro polonês Krzystof Penderecki, que conduzirá seu “Réquiem Polonês”.

Em São Paulo todas atenção acabam naturalmente voltadas para a Sala São Paulo e a orquestra que ela abriga, a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Dirigida por John Neschling, mais uma vez ela proporcionará a sua audiência uma programação diversificada assim que ela retornar de sua turnê pela Europa, contando ainda com a presença maciça de maestros e solistas convidados que valem a pena serem conferidos.

Porém, o mundo sinfônico paulista não se limita a Osesp, existindo várias opções interessantes fora dos domínios de John Neschling. O Theatro Municipal volta à ativa após a interrupção de sua reforma, ainda sem prazo para ser retomada. Os conjuntos orquestrais da cidade (a Orquestra Sinfônica Municipal e a Orquestra Experimental de Repertório) ocuparão com regularidade o palco do teatro, dividindo-se entre produções sinfônicas e operísticas. Além delas, vale a pena destacar o trabalho eclético que a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e a Orquestra Jazz Sinfônica vêm desenvolvendo nos últimos anos, constituindo alternativas estilísticas importantes dentro da tradição clássica.

Ópera ao Norte!

Apesar de todo o peso do Sudeste na cultura musical clássica brasileira, mais uma vez é da região Norte do país de onde vêm as atrações mais instigantes em termos de ópera. E mais uma vez é Manaus, agora na décima primeira edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO), que conduz o movimento da ópera amazônica, tendo em vista que a cena lírica do Pará passa atualmente por um profundo processo de reestruturação iniciada com a mudança do governo estadual, ocorrida no começo do ano.

Apesar do dramático corte de verbas que o FAO sofreu este ano ele mantém-se vivo e com uma programação interessantíssima. O grande destaque deste ano é o que possivelmente se trata da primeira encenação brasileira da ópera “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Shostakóvitch, que será conduzido pelo maestro Luiz Fernando Malheiro (também diretor do FAO).

Apesar de sua importância em âmbito nacional e de sua projeção no cenário internacional, o FAO parece ainda não receber das autoridades locais a atenção devida. Tal se deve não apenas pelos significativos cortes de verbas que o evento passsou, mas também pela ausência de uma infra-estrutura profissional de vendas de ingressos e da inexistência de uma política de turismo cultural (nacional e internacional) que poderia ser agregada ao evento.

Música ad infinitum

Muita música que irá acontecer pelo país, pois mesmo para quem está fora da megalópole do Sudeste há, ainda que de forma esporádica, algumas atrações musicalmente relevantes e a preços acessíveis. A exemplo do que ocorreu nos últimos anos, a Funarte promete também para este ano mais uma edição do projeto Circulação de Música de Concerto, que financia espetáculos clássicos em regiões e cidades onde este tipo de prática ainda não se realiza de forma constante. As redes Sesc e Sesi vez o outra promovem eventos em todo o país que também merecem ser observados pelos amantes da música de concerto. Pode ainda não ser o suficiente, mas quem sabe não é a semente de algo possa crescer e nutrir os devaneios artísticos de gerações futuras?

Fotos: 1) Theatro Municipal do Rio de Janeiro; 2) Sala São Paulo e 3) Teatro Amazonas.

DESTAQUES DA TEMPORADA BRASILEIRA 2007

Rio de Janeiro:

Orquestra Petrobrás Sinfônica (OPS)

- Abril: Festival Villa-Lobos (“Choros No. 10” e “A Floresta do Amazonas”). Isaac Karabtchevsky (reg.).
-
Julho: “Réquiem Polonês”, de Krzystof Penderecki (regido pelo próprio compositor).

- Setembro: Karabtchevsky rege a “Sinfonia No. 6”, de Mahler.

- Outubro: com regência de Daisuke Soga, obras de Saint-Säens e Bartók, com solos do violinista David Garret.

Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB)

- Abril: Roberto Minczuk rege obras de Strauss, Wagner, Siqueira e Carrilho, com solos do violonista Yamandú Costa.

- Maio: Kurt Masur rege obras de Wagner, Schuber e Dvorák.

- Julho: A soprano Eliane Coelho canta Strauss, Wagner e Duparc, com a OSB regida por Ronald Zollman.

- Setembro: concerto comemorativo aos 50 anos do violoncelista brasileiro Antonio Meneses, que solará os concertos de Dvorák e Krieger, sob a regência de Roberto Minczuk.

São Paulo:

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP)

- Junho: “Romeu e Julieta”, de Berlioz, regido por Yoram David.

- Agosto: “Messa di Gloria”, de Puccini, e o dificílimo “Concerto para Violino e Orquestra”, de Ligeti, com solos de Isabelle Faust, com a OSESP regida por John Neschling.

- Outubro: o raríssimo “Concerto” de Busoni será solado por Peter Donohoe, regido por John Neschling.

- Dezembro: Neschling conduz a “Sinfonia No. 9” de Beethoven e a estréia mundial de “Crase”, de Flo Menezes.

Theatro Municipal de São Paulo

- Abril: “Erich Korngold - 50 anos de morte”, com a Orquestra Experimental de Repertório (OER) regida por Jamil Maluf.

- Maio: “Jean Sibelius - 50 anos de morte”, com a OER regida por Lígia Amadio e solos da violinista Liza Ferschtman.

- Junho: Concerto com obras de Villa-Lobos e Kilar Wojciech, com a Orquestra Sinfônica Municipal (OSM) regida por José Maria Florêncio.

- Junho: “Sinfonia dos Salmos”, de Stravínski, e “Stabat Mater”, de Rossini, com a OSM regida por José Maria Florêncio.

Banda Sinfôncia do Estado de São Paulo (BSESP)

- Maio: sob a regência de Ira Levin, o grupo acompanha a violinista búlgara Eugenia Maria Popova no famoso “Concerto” de Tchaikóvski.

- Junho: “Shakespeare”, espetáculo cênico-musical que contará com ator Celso Frateschi, acompanho pela BSESP sob a regência do espanhol Rafael Sanz-Espert.

- Novembro: o grupo estréia o “Concertino” de Mehmari, com solos do pianista Ricardo Castro, sob a regência de Abel Rocha.

Ópera:

XI Festival Amazonas de Ópera (Manaus, de abril a maio)

- “O Holandês Voador” (ou “O Navio Fantasma”), de Wagner, regido por Luiz Fernando Malheiro, com direção de Christoph Schlingensieff.

- “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Shostakóvitch, regido por Luiz Fernando Malheiro, com direção de Caetano Vilela.

- “Poranbuda”, de Villani-Côrtes, regido por Marcelo de Jesus, com direção de Francisco Frias.

- Gala Lírica com a soprano italiana Nuccia Focile, acompanhada pela Amazonas Filarmônica sob a regência de Luiz Fernando Malheiro.

I Festival Internacional de Ópera da Amazônia (Belém, de julho a setembro)

- “O Guarany”, de Carlos Gomes.

- “L'elisir d'amore”, de Donizetti.

- “La Cenerentola”, de Rossini.

São Paulo

- Junho: “A Italiana em Argel”, de Rossini, com a OER regida por Jamil Maluf, com direção cênica de Hugo Possolo.

- Setembro: “Elektra”, de Strauss (versão concerto), com a OSESP regida por John Neschling.

- Setembro: “A Voz Humana”, de Poulenc, com a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo regida por Abel Rocha.

Rio de Janeiro

- Julho: “L’Orfeo”, de Monteverdi.

- Outubro: “A Dama de Espadas”, de Tchaikóvski.

- Novembro: “Carmen”, de Bizet.

Série de assinaturas:

Mozarteum Brasileiro

- Maio: NDR Big Band, com apresentações em São Paulo, Santos, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Blumenau e Salvador.

- Junho: Tokyo String Quartett (apenas em São Paulo).

- Setembro: Orquestra Sinfônica de Euskadi, sob a regência de Gilbert Varga, com apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e Blumenau.

Dell’Arte (Rio de Janeiro)

- Julho: Coro e orquestra do Teatro Colón de Buenos Aires.

- Setembro: Orquestra de Veneza.

- Agosto: Gustav Mahler Jüngend Orchester.

Cultura Artística (São Paulo)

- Abril: Budapest Festival Orchestra, regida por Iván Fischer.

- Junho: Yo-Yo Ma (violoncelo) e Kathryn Stott (piano).

- Novembro: Orquestra de Varsóvia, regida por Antoni Wit e solos do violoncelista Antonio Meneses.

Festivais de música

38º. Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP):

- Julho: sob a direção de Roberto Minczuk o mais tradicional do país terá a mulher como temática para este ano. Várias musicistas (instrumentistas, cantoras e maestrinas) estão previstas em sua programação, além de ser uma rara oportunidade de conferir composições criadas por diversas mulheres ao longo da história da música.

17º. Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga (MG):

- Julho: sob a direção de Luís Otávio Santos – um dos maiores especialistas brasileiros de música antiga – para este ano o evento dará continuidade na exploração do repertório do Classicismo que marcou a edição anterior, executando obras de Haydn e do brasileiro José Maurício Nunes Garcia.

[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

20 março 2007

Osesp ao vivo: impressões do olho do furacão

Segunda-feira de manhã meu celular toca. É a Adriana, produtora da Rádio Cultura, me convidando para comentar o concerto da Osesp que eles retransmitirão desde Viena, no dia seguinte.

Topo. Afinal, um convite para ouvir (boa) música raramente deve ser dispensado, apesar de não ter muita certeza de como poderia contribuir para fruição de uma atenta audiência que há dias anseia por este momento. Penso com meus botões que já não atrapalhando já seria muito bom.

Na terça, antes de ir para a rádio, tenho aulas de orquestração para dar na faculdade. Aproveito o embalo e levo a tira-colo as partituras do "Concerto No. 4", de Rachmaninov, e de "La Mer", de Debussy. Concluo que ouvir a orquestra não apenas como "cri-crítico", mas também como músico possa ser uma contribuição mais interessante.

Tudo está tranqüilo, até que ao chegar na rádio me deparo com a energia que está no ar. Aquela energia que costuma existir quando algo de importante está prestes a acontecer: pessoas apressadas correndo de lá pra cá, distribuição de roteiros e papéis, mini-reuniões, etc.

Eu e meus companheiros de empreitada somos conduzidos ao estúdio. Do lado de cá do aquário (isto é, o vidro maciço que divide em dois o estúdio) eu, o caríssimo João Marcos Coelho, o sempre simpático Gilberto Tineti e a anfitriã Gioconda Bourdon. Do lado de lá, uma pequena multidão de técnicos, produtores e operadores se aglomeram para garantirem que tudo sairá como se planeja.

Aliás, planejamento é um palavra extremamente relativizada em situações como esta. Improvisação e capacidade de adaptação acabam sendo mais importantes. Coisas inimagináveis podem ocorrer. E invariavelmente ocorrem: cai entrada, muda depoimento de lugar, alonga o comentário aqui, corta bruscamente acolá. Coisa de equilibrista, que tem como principal guia um letreiro luminoso vermelho escrito "Gravando".

A música começa. Passa o Guarnieri. Acompanhamos o Rachmaninov com a partitura. Ouvindo já fica claro que é difícil, mas com as notinhas ali, diante de seus olhos, ele parece mesmo impossível. É possível aumentar ainda mais a admiração por Freire?

Intervalo. Um pouco de descanso e muito papo bom trocado no estúdio (ainda acho que é justamente o que é dito com os microfones desligados aquilo de mais interessante que pode ocorrer em situações como esta).

Começa o Debussy, e se os ouvidos podem enganar, a leitura da partitura mostra que tudo flui forma bela e musical. Arrepios no "Dialoque du vent et de la mer". Uma besteirinha aqui ou acolá não diminui em nada o prazer da escuta.

Vem o Ginastera, Guerra-Peixe e o Villa-Lobos. Só com o Debussy já teria bastado, mas ouvir um pouco mais não faz mal algum. Acaba o programa. Todos se cumprimentam como se tivessem lá, em Viena. E de certa forma estávamos.

Foto: jardins da Fundação Padre Anchieta, onde se localiza os estúdios da Rádio Cultura FM