08 setembro 2008
Música nova e a nova música
25 agosto 2008
Que educação musical?
Está no ar no site da Revista Concerto o texto "Que educação musical?" sobre a lei que regula o ensino musical no Brasil e o veto presidencial num ponto de "pouca importância". Acesse: www.concerto.com.br
14 agosto 2008
Depois do amor / After love
por JacK Gilbert
Ele está assistindo música de olhos fechados.
Ouvindo o piano como um homem se movimentando
através da mata, pensando por sentimento.
A orquestra em cima das ávores, o coração embaixo,
passo a passo. De vez em quando a música se precipita,
mas sempre volta a silenciar, tal como o homem
nostálgico e esperançoso. Tem uma coisa na gente,
quase sempre imperceptível. De algum modo existe um prazer
na perda. Na ansiedade. A dor
vai deste jeito. Nunca mais.
Nunca mais mesmo. De novo o nunca.
Vagarosamente. Nenhuma planta. Quase partindo.
Uma beleza murmurosa no silêncio.
O ter sido. Ter tido. E o homem
sabendo que tudo dele chegará ao fim.
AFTER LOVE*
by JacK Gilbert.
He is watching the music with his eyes closed.
Hearing the piano like a man moving
through the woods thinking by feeling.
The orchestra up in the trees, the heart below,
step by step. The music hurrying somethimes,
but always returning to quiet, like the man
remembering and hoping. It is a thing in us,
mostly unnoticed. There is somehow a pleasure
in the loss. In the yearning. The pain
going this way and that. Never again.
Never bodied againg. Again the never.
Slowly. No undergrowth. Almost leaving.
A humming beauty in the silence.
The having been. Having had. And the man
knowing all of him will come to the end.
* Publicado revista "The New Yorker", July 7 & 14, 2008. Sugestões de melhorias e correções da tradução serão bem-vindas.
11 agosto 2008
China e sua olimpíada musical

Está no ar no site da Revista Concerto o texto "China e sua olimpíada musical", sobre o fenômeno da música clássica na terra de Mao Tsé. Acesse: www.concerto.com.br
22 julho 2008
Gente nova, música nova
Está no ar no site da Revista Concerto o texto "Gente nova, música nova", sobre o sucesso de jovens compositores brasileiros que, para ouví-los, você vai ter que pegar um vôo internacional. Acesse: www.concerto.com.brIlustração: detalhe da partitura "In Harmonica", de Sergio Kafejian.
03 julho 2008
São Pedro entre ianques e soviéticos
Óperas de Gershwin e Shostakóvitch ganham o palco do charmoso teatro paulistanoSemana passada foi apresentada no Theatro São Pedro (TSP) uma interessante montagem da famosa folk-opera de George Gershwin, “Porgy and Bess”, e a partir de amanhã seu palco cederá lugar para seu “antípoda” soviético, a ópera "Moscou, Tcheryomushki" de Dmitri Shostákovitch.
Mas na verdade os antagonismos são apenas superficiais, pois ambos compositores tinham a preocupação social – para não falarmos de engajamento ideológico – presentes em suas poéticas musicais. Cada qual ao seu modo, o que une estas duas óperas de estéticas e países tão distintos é a crítica às estruturas da sociedade por meio de um pequeno retrato de seu cotidiano.
A montagem de “Porgy and Bess” mostrou como com dedicação e competência é possível fazer espetáculos operísticos interessantes a baixos custos. Sob a direção musical do jovem compositor e arranjador Felipe Sena, a partitura orquestral foi transcrita para uma formação de câmara, que se mostrou muito eficiente para as dimensões do TSP. Confortável com swing popular e habilidoso com o rigor da partitura escrita, a regência de Sena potencializou a pluralidade estilística inerente à partitura.
O elenco vocal desta produção alternou entre a fragilidade técnica de parte dos papéis coadjuvantes e a excelência dos protagonistas. José Gallisa e Edna D’Oliveira foram incontestáveis enquanto casal protagonista, no qual se destaca o trabalho corporal do Gallisa de forma a conferir verossimilhança ao aleijado Porgy. Porém, é de se notar o fundamental trabalho realizado por Ednéia de Oliveira (Serena) e de David Marcondes na pele do sexualmente agressivo Crown.
Sob a direção cênica de João Malatian, este “Pockt-Porgy and Bess” foi muito bem sucedido em sua parte cênica, que contou ainda o inventivo cenário de Renato Theobaldo e Roberto Cardoso, que com seus caixotes de frutas, tão típico em nossos mercadões, concedeu ares paulistanos à América sulista.
* * *
Enquanto isto, a um oceano de distância e nos gélidos ares russos, Shostákovitch dava vazão à sua crítica à hipocrisia e ao cinismo das autoridades soviéticas na ópera "Moscou, Tcheryomushki", ambientada numa cidade “ideal”, muito comuns durante o regime, mas cuja solidez de sua sociedade se assemelhava às de um cenário de ópera. O Núcleo Universitário de Ópera, que sob a direção de Paulo Maron ficou conhecido em nossa cidade pelas operetas de Gilbert e Sullivan, irá mudar de ares de forma radical, fazendo toda a parte vocal no original em russo. O simpático cartum ao lado - com Shostákovitch passeando com seu Lada em Tcheryomushki - integra a divulgação desta montagem que vale conferir.
Foto de "Porgy & Bess": Rachel Guedes
22 junho 2008
O reinado de Eiko Senda
Em montagem de "Madama Butterfly", a soprano Eiko Senda é a imperatriz absoluta do Theatro Municipal de São Paulo.Na carreira de um grande intérprete não é algo incomum que sua figura e arte fiquem associadas a uma obra específica. Entre os instrumentistas e regentes é mais comum que esta associação seja feita com um compositor em específico: Mahler é com Abbado, Rachmaninov é com Horowitz, e assim por diante.
No canto operístico, por sua sua vez, esta associação ocorre não apenas com um dado compositor, mas freqüentemente com uma personagem em específico. Muitos são os fatores que conduzem a esta associação. Registro correto, talento musical, competência dramática e carisma são, sem dúvidas, elementos fundamentais. Mas na verdade não há uma fórmula que explique exatamente o porquê de algumas vozes parecerem criadas para aquela personagem. Há um "Q" a mais que - Deo gratias - reside no intangível analítico.
A estréia que o Theatro Municipal de São Paulo realizou de sua nova montagem de "Madama Butterfly", de Giacomo Puccini (1858-1924), foi apenas mais um dos capítulos que consagram a relação da soprano Eiko Senda com a gueixa trágica Cio-Cio-San. Ainda que o fato da cantora ser japonesa possa ser um fator de relevância, a verdade é que a mágica simbiose entre Eiko e a personagem se explica justamente por este "Q" a mais, algo além do estereótipo étnico-visual ao qual soma-se tudo aquilo que uma grande cantora deve ter (registro correto, talento musical, competência dramática, carisma, etc.).
Numa grande noite, na qual a "imperatriz" Eiko emocionou seu súditos, foi também notável o desempenho de alguns de seus companheiros de palco, em especial a mezzo Silvia Tessuto (Suzuki) e o baixo-barítono Lício Bruno (Sharpless). Ainda que com aparições pontuais, vale também ressaltar o trabalho de Sergio Weintraub (Goro), Pepes do Valle (Bonzo) e Jang Ho Joo (Yamadori), que juntos consolidaram um elenco vocal e cenicamente competentes.
No final das contas, coube ao tenor inglês Paul Charles Clarke conferir ao personagem Pinkerton uma dupla função de "vilão". Não que o cantor seja destituído de um sarcasmo cênico tão apropriado para o personagem, mas o fato é que seu volume vocal mostrou-se aquém do exigido, sendo freqüentemente eclipsado quando em ação com outros cantores.
Nesta nova montagem o diretor cênico Jorge Takla se propôs realizar uma "Madama Butterfly" abstrata (leia entrevista abaixo), que teve na cenografia de Tomie Othake seu ponto de apoio que, no entanto, pendeu mais para o meramente funcional do que para o visualmente inspirado. Posto isto, a direção de movimentos de Susana Yamauchi revelou-se fundamental para a fluidez cênica do espetáculo, aliada à laboriosa iluminação do próprio Takla, um engenhoso itinerário de cores que tingiu o palco do Municipal ao longo da heterogênea paleta de sentimentos puccinianas.
Assim, as pontuais projeções de bambuzais e da bandeira dos EUA mostram-se não apenas dispensáveis, mas de certa forma, contraditórias com a proposta geral. Mas mais dispensável foi a representação em forma de "árvore humana" da cerejeira do quintal de Cio-Cio-San e o kitsch bailado do segundo ato.
Sob a regência de Jamil Maluf, o Coral Lírico e a Orquestra Experimental de Repertório cumpriram com eficiência suas funções, e há de se salientar que não são poucas as armadilhas que a escrita de Puccini reserva aos heróicos soldados do fosso da orquestra.
* * *
Mas voltemos a Eiko Senda. Se de um lado ser eternizada com uma personagem em específico (ainda mais se tratando de Cio-Cio-San) é um honra a poucos concedida, como toda dádiva ela pode facilmente ser convertida em maldição. Então, em tempo, é bom lembrar que Eiko não é Cio-Cio-San. Seu talento vai além de qualquer kimono que ela possa por ventura portar, e mesmo o público brasileiro já teve (e, espera-se, terá) diversas oportunidades de conferi-la em diferentes papéis, desempenhados com iguais esmero e musicalidade.
Foto: Eiko Senda (divulgação TMSP).
O caso Ariadne e o Eldorado amazônico
Pois bem, a tal parceria não ocorrerá por motivos diversos. Alguns deles o diretor Vilella expõe em dois posts de seu blog ("Uma outra 'Ariadne' para São Paulo" e "Ainda sobre 'Ariadne'. Réplica e tréplica"). Em princípio, datas e elencos estão confirmados, mas de fato a interessante montagem de Manaus não virá para Sampa (caberá também competente André Heller a elaboração de um novo espetáculo).
Por outro lado, a não concretização da parceria vem acompanhada de mais um "troféu" recebido pelo FAO. Desta vez trata-se de uma elogiativa matéria da revista francesa Opéra Magazine, tal como informa Jorge Coli hoje na Folha de S. Paulo (na internet, o texto infelizmente está em área restrita).
Como já tratei recentemente, e ao longo dos anos que cubro o FAO, o evento trata-se algo único e necessário para qualquer brasileiro verdadeiramente interessado em música (seja ela de qual tipo for). Claro, a distância será sempre um empecilho para que o grosso da audiência clássica, concentrada no Sudeste, veja com seus próprios olhos e ouça com seus próprios ouvidos aquilo que é um verdadeiro Eldorado da música operística brasileira.
Porém, a real concretização de parcerias é fundamental para que o Eldorado transcenda a condição de lenda e consolide de uma vez sua vocação para marco histórico.
Por ora, resta a quem ainda não pode inspirar os cálidos os ares líricos amazônicos uma pequena amostragem que o regente Marcelo de Jesus (braço direito de Luiz Fernando Malheiro no FAO e na Amazonas Filarmônica) está disponibilizando em seu blog.