27 março 2008

O perpétuo desafio da novidade

Na abertura de mais uma temporada, a Banda Sinfônica dá prosseguimento ao seu desafio cotidiano de conciliar tradição e modernidade numa cidade ainda surda às novas idéias.

Quarta-feira passada a Banda Sinfônica (corpo estável do Estado de São Paulo, integrante do complexo Centro Tom Jobim) deu início a sua série de assinaturas 2008 com um programa que, simbolicamente, reflete às peculiaridades inerentes a este grupo sinfônico (para saber mais das diferenças entre uma banda e uma orquestra sinfônica, visite o site do conjunto).

Antigas relações profissionais que este que vos escreve um dia manteve com o grupo me inviabilizaram de abordá-la criticamente, seja no blog, seja na Gazeta Mercantil. Razões éticas e pessoais naturalmente estariam envolvidas e, conscientemente, ainda não conto com a isenção ideal para falar desta orquestra com a qual aprendi e realizei algumas experiências musicais. Então, leitor, perdoe-me por quaisquer problemas que este texto possa transparecer. Mas feito o alerta, vamos ao que interessa.

Neste concerto de abertura, regido por Abel Rocha, o repertório tangenciou diversas tendências e gostos musicais. Do estupendo modernismo de Messiaen ao simpático academicismo do jovem Puccini, este programa foi caracterizado pela convivência de opostos. Aliás, esta é uma característica própria do grupo, e cabe ao ouvido de cada um decidir se tal convivência é ou não harmoniosa.

O concerto iniciou-se com a "Abertura sobre Ostinato", de André Mehmari, que desde 2007 é compositor em residente do grupo (ação que, no Brasil, apenas a Banda faz questão de manter). Peça sem maiores pretensões, e certamente não representativa do trabalho que o compositor desenvolve com o grupo, o "Ostinato" acabou, por fim, limitando-se à função de prólogo.

Mas, inevitavelmente, todas as atenções da noite estavam voltadas para "Oiseaux Exotiques", de Olivier Messiaen. Escrita para piano solo e pequeno grupo de sopros e percussão, a peça continua a surpreender por sua ousada sonoridade, apesar de ter sido composta há mais de meio século. Tour de force rítmico para o conjunto e para o solista, foi ainda mais admirável a competência com a qual o pianista Jean Louis Steuerman (que ano passado já tinha enfrentado com a Banda o "Concerto" de Stravinsky) enfrentou intrincados seu solos. Pena mesmo a platéia não ter sido insistente o suficiente para garantir um bis deste singular pianista.

O interessante de um concerto de banda sinfônica é que, por se tratar de um agrupamento relativamente recente na história da música, parte de seu repertório constitui de transcrições de obras originalmente escritas para orquestras tradicionais, tal como é o caso do "Prelúdio Sinfônico em Lá Maior", de Giacomo Puccini, que na feliz transcrição de Ton van Grevenbroek adquiriu matizes que conferiram um novo colorido à obra.

Aliás, um novo colorido foi certamente a impressão que o compositor Ronaldo Miranda deve ter sentido ao re-ouvir sua obra "Suíte Tropical". Composta sob encomenda da Banda nos primórdios do grupo, sua reapresentação incorporou não apenas uma série de correções à partitura original mas, sobretudo, encontrou na atual Banda um grupo sonoramente mais coeso, afinado, capaz de lidar com os mais diferentes desafios musicais.

Resta agora à Banda lidar um outro tipo de desafio, isto é, o da resistência do grande público clássico não apenas à palavra "banda", mas principalmente a se propor a ouvir outras coisas, não necessariamente "novas", mas, no mínimo, "diferentes". Et vive la différence!

09 março 2008

Temporada 2008: o começo em diferentes propostas e novos caminhos

Percorrer novos caminhos (literal ou metaforicamente) para dar continuidade ao sonho do deslumbre musical.

Como é de conhecimento de todos, a temporada de concertos brasileira começa na prática, neste mês de março, apesar de alguns poucos eventos servirem como um pequeno refresco para a estiagem musical que nos aflige até que os calores do carnaval passem.

Para quem está sediado na capital paulistana, é natural que o início dos concertos da Osesp funcione como marco de uma nova safra de música. E, neste sentido, este concerto de abertura não poderia ser mais simbólico, ao programar a estupenda Sinfonia No. 2, “Ressurreição”, de Gustav Mahler. Simbólico pela própria idéia de ressureição, renovação, reinício e ciclicidade que não apenas a Sinfonia No. 2 de Mahler sugere, mas toda sua obra. Simbólica porque, nove anos depois de sua inauguração, a Sala São Paulo volta a ser o palco desta majestosa obra. Simbólica porque a própria orquestra segue seu rumo e ciclos, preparando-se para mais uma temporada.

Muitas coisas mudaram e passaram pela orquestra de John Neschling desde então. Se anteriormente o “Projeto Osesp” tinha lá sua fragilidade, hoje ele detém considerável robustez a partir da blindagem política realizada pelo corpo que a gerencia institucionalmente (afinal, ter um ex-presidente da República como seu presidente e protetor e um verdadeiro corpo ministerial como seus guardiões é algo que se mostrou de suma relevância nos últimos tempos). Teria a nau osespiana resistido a tamanhas intempéries sem esta blindagem?

Atualmente trata-se de uma orquestra não só mais madura, com significativa melhoria de sonoridade em todos seus naipes (apesar de deslizes eventuais), mas também uma orquestra mais brasileira. Anos atrás talvez fosse mais fácil fazer um ensaio em russo do que em português. Hoje, os russos se naturalizaram e mais brasileiros integram seu efetivo.

É importante notar que “na outra Ressureição”, de anos atrás, muitos dos músicos que hoje estão nas estantes da Osesp estavam em sua platéia (ou na portaria procurando por um ingresso sobrando). Ajustes a fazer sempre existirão, e caberá às forças envolvidas na base de sustentação da orquestra (maestro, músicos, patrocinadores, público, etc.) planejar a trajetória dos próximos anos.

Mas e o concerto da “Ressurreição”? Bem, as críticas já pipocaram aqui e acolá imprensa afora. Peça maravilhosa, corais (Sinfônica e Paulistano) muito bem preparados, Nathalie Stutzmann talvez melhor do que nunca, Heidi Murphy como uma voz que se deseja ouvir mais vezes por aqui, deslizes nos metais e ótima sonoridade de todo o conjunto orquestral. Neschling, mais uma vez, se saindo muito bem à frente de seus vienenses do Romantismo Tardio (uma já declarada predileção sua).

Mas quando se testemunha a constância de um bom patamar de interpretação musical em meio a um ambiente musical heterogêneo como o brasileiro, o desafio da crítica é, por um lado, se renovar na abordagem dos grandes espetáculos e, por outro, estabelecer uma nova dinâmica para a numerosa gama de espetáculos à nossa disposição.

Pois bem, desafio topado. Se na quinta-feira a idéia foi a pompa e circunstância da Sala São Paulo, com uma excelente orquestra, elenco internacional e uma obra sinfônica de enormes proporções, para o último sábado a proposta era algo diferente.

Vinhedo, 70km da capital paulista. Um mosteiro beneditino em meio ao frescor da mata interiorana, ao invés da sala de concerto na incandescente Cracolância. Ao invés de Mahler, Haydn. Da Ressureição à morte, Daquele que iria ressurgir no terceiro dia.

Tratou-se do início da temporada da série Música no Mosteiro, ocasião na qual o cravista Edmundo Hora (com a participação do tenor Sidnei Alferes) inaugurou seu novo fortepiano (instrumento que precedeu o piano moderno) com a emocionante “As sete últimas palavras de nosso Salvador na Cruz”, que Joseph Haydn compôs para o ofício das trevas na catedral de Cádiz.

Rumo ao interior!, cheguei a escrever em meu depoimento na edição da Revista Concerto passada (Jan/Fev 2008). E este rumo pode lhe oferecer gratas surpresas, como o som único de um instrumento, tal como é o caso do fortepiano e toda a magia de presenciar uma igreja em plenas trevas, iluminada apenas pelo clarão dos acordes haydnianos.

Renovar é preciso e, além daquilo o que é “líquido e certo”, é necessário irmos além. Nem sempre precisamos percorrer alguns quilômetros sobre a estrada escura para nos depararmos com uma grata surpresa, pois não raro a novidade está aí, do ladinho de nós.


04 março 2008

Beethoven, alemão gordo e cervejeiro

Apesar de gostar de música clássica, o escritor Charles Bukowski não perdoava ninguém.

Anos atrás, em meu début na mídia impressa com o artigo "Jovens Compositores no Brasil" (Revista Concerto, No. 81, Jan/Fev 2003), citei uma passagem para mim muito significativa do escritor Charles Bukowski. "Jamais se é um escritor: a gente tem de se tornar um toda vez que escreve". Apenas quem diariamente lida com a criatividade e a inventividade pode saber o que uma frase como esta significa, e no momento Buk resumiu todo um sentimento que encontrei ressonância em muitos outros colegas.

Mas a questão é quem diabos é Charles Bukowski (ou Buk, para os íntimos)?

Nascido em 1920 em Andernach, na Alemanha, aos três anos mudou-se com sua família para os Estados Unidos, onde viria conhecer o lado nada glamouroso do American way of life (que o matou em 1994). Empregos indigentes, facínoras, prostitutas, pensões baratas, porres e brigas são temas nada agradáveis, mas que uma vez presente no dia-a-dia de Bukowski, farão parte de sua prosa e poesia.

Com vários de seus livros traduzidos para o português (e editados no Brasil), é constante a referência a compositores e à música clássica em sua cáustica escrita. Num mundo miserável material e espiritualmente, a música é a única chama capaz de clarear, um pouco, a densa escuridão das trevas cotidiana.

Mas se engana quem achar que Bukowski trata a música clássica como algo sagrado. Ela é apenas um elemento bem-vindo, sobre o qual talvez exista algo mais elevado a se pensar, mas que a ressaca impede de desenvolver. Em Bukowski os grandes compositores são freqüentemente reduzidos à meras caricaturas.

No livro de poemas "The days run away like wild horses over the hills" (Ecco, 1969), Buk faz diversas referências à música e à alguns compositores, em poemas como "a night of Mozart", "to hell with Robert Schumann" e o non-sense (e divertido) "L. Beethoven, half-back", que segue abaixo numa tradução feita especialmente para celebrar o outro lado da outra música. Have fun!

L. Beethoven, half-back*
por Chales Bukowski
(trad. Leonardo Martinelli)

ele apareceu do meio do time;
Ludwig V. Beethoven, bloqueando
o meio de campo. ele estava realmente
estragado. mas ele bebe cerveja
e toca piano a noite toda.
Schiller, seu aloprado, ele
disse. deixe as mulheres em paz.
as mulheres serão sempre as
mesmas. não esquenta, quando você
precisar de uma, ela estará lá.

e Tchaikovsky, ele disse,
tome algumas vitaminas. eu não
ligo que você é uma bicha:
apenas fique longe
de mim. este é o problema
com todos vocês, caras:
vocês são muito
pálidos!

eu tomei um encontrão do G. B. Shaw
e caí perto da linha final;
Beethoven tirou do lance 3 caras,
e quando eu passei
ele disse, eu descolei
duas minas para hoje de noite
não machuque
nada
que você vá precisar
mais tarde...

Eu disparei no campo
cruzando as jardas
como um maluco. B. estava
estudando harmonia, mas
eu duvido se ele consegue
mesmo
fazer isto. ele é apenas
um alemão
gordo e cervejeiro

* Todo o poema está ambientado numa partida de futebol americano. "Half-back" é o nome da posição do jogador que fica na frete dos "fullbacks" e atrás dos "forwards". Poderia ser traduzido como "meio-campo", mas preferi manter o original em inglês.

14 fevereiro 2008

A música e a aridez bibliográfica no Brasil

Não verás país nenhum!

Duzentos anos depois de a imprensa ter se instalado no país, pouca coisa mudou no mercado bibliográfico musical brasuca

Em 1808, quando a corte portuguesa por aqui aportou, foi o mesmo ano em que nossos portos foram autorizados a "abrirem seus cais" para o comércio internacional (ainda que na época o tal "internacional" se limitasse apenas à Inglaterra. Mas isto é outra história...). Foi neste mesmo ano, após literalmente séculos de proibição, que a atividade de imprensa - em seu amplo sentido - foi liberada. Jornais, livros e periódicos estavam autorizados a serem produzidos, impressos e distribuídos, atendendo a demanda de uma sociedade que passaria por um profundo processo de transformação.

Duzentos anos se passaram, mas parece que a liberação da imprensa pouco efeito surtiu no mercado livreiro de música. Nesta época do ano, aonde professores como eu se vêm às voltas com planos de aula e material pedagógico, montar uma bibliografia requer muita habilidade, pois raros são os livros fundamentais de formação musical disponíveis no momento.

À procura de Orfeu

O problema do mercado livreiro de música no Brasil é complexo, e se desenvolve em diversas frentes.

Num primeiro instante, o que é mais sensível e urgente é a inexistência de traduções brasileiras de obras clássicas da literatura musical mundial. Obras disponíveis no vernáculo de estudantes, músicos e melômanos de diversas partes do mundo por aqui são raras mesmo em seus idiomas originais, ou em uma tradução em uma língua mais "próxima" da nossa.

Por exemplo, os tradicionalíssimos livros de contraponto de Joseph Fux e Knud Jeppesen (um originalmente publicado em latim, e outro em dinamarquês) só chegaram aqui por meio de traduções em inglês. Posso até concordar que, atualmente, há métodos muito mais modernos e atraentes. Mas o problema é que é vedada a possibilidade de ao menos entrar em contato com estas obras.

Os fundamentais "The Classical Style" e "Sonata Forms", de Charles Rosen, permanecem intactos em sua versão original. Quando muito se consegue um exemplar em espanhol que, não raro, custa muito mais caro que o original em inglês.

Mas a situação mais irônica ocorre mesmo com o livro "História da Música Ocidental" dos americanos Donald J. Grout e Claude V. Palisca. Obra referência no estudo desta matéria, no Brasil os estudantes têm que recorrer à versão impressa em Portugal, que nesta época do ano chega aos lotes nas livrarias paulistanas. Se a língua é (quase) a mesma, o preço não, pois o brasileiro paga caro por um livro manufaturado em Euro.

Evidentemente, há muitos outros livros que poderiam ser listados aqui. Mas mesmo esta modesta amostra já serve para nos dar a dimensão do quão dramática é a situação.

Mas acha que é só isto? Não, a coisa fica pior...

Fahrenheit 451

Não bastasse a escassez de títulos, o mercado livreiro de música sofre de um outro problema grave, qual seja, a não reimpressão de títulos já produzidos ou traduzidos.

Obras de referência como "Fundamentos da Composição Musical", de Arnold Schoenberg, "História da Música no Brasil", de Vasco Mariz, "Música Eletroacústica: história e estéticas", coletânea de textos organizada por Flo Menezes e "História da Música Ocidental", de Jean e Brigitte Massin, estão ausentes nas estantes das livrarias (e por tabela das bibliotecas) por falta de estoque na editoras que, subestimando o impacto mercadológico dessas obras, fizeram tiragens pífias, que se esgotaram rapidamente.

Mas se os livros estão esgotados, porque as editoras não os relançam? Como (talvez) diria Charles Ives, that's an unanswered question.

Dissertações e teses enquanto livros

Se em termos de obras de referência há uma estiagem em andamento, algum conforto pode ser encontrado na nova tendência do mercado editorial em música, que é a publicação de dissertações de mestrados e de teses de doutorados em forma de livros comerciais.

Em geral sob a incumbência de uma editora universitária, esses livros trazem consigo o conteúdo de uma dissertação ou tese, porém exposta de forma mais "palatável", sem os academicismos, atenuação do jargão e mesmo com a supressão de partes do texto original.

Se por um lado temos que comemorar o desenvolvimento deste mercado, que a cada ano mostra-se mais consolidado, pelo outro é importante notar que teses e dissertações são, por natureza, trabalhos que encerram um alto grau de complexidade e especificidade, e nem sempre se prestam ao uso de estudantes, melômanos ou mesmo músicos profissionais em busca de um outro tipo de informação.

É de se salientar que muitos destes títulos universitários correm o mesmo risco de, após o esgotamento da primeira edição, juntarem-se ao limbo de obras à espera de uma segunda edição.

O autômato-livraria

Posto tudo isto, não fica muito difícil concluir que a saída para músicos, estudantes e interessados em geral é, com freqüência, um inevitável tiro nos pés. Isto é, a cultura da fotocópia (o bom e velho xerox) é algo que dificilmente será erradicado enquanto este estado de coisas se mantiver.

A coisa chegou a tal ponto que muitos sequer cogitam a procura numa livraria, recorrendo diretamente às famigeradas "pastas de professores" nas lojinhas que cercam as escolas e universidades. Desta forma, a fotocopiadora é metamorfoseada num autômato-livraria: basta pedir que ela cuspirá as preciosas páginas tão raras de serem encontradas em estado original.

06 fevereiro 2008

OutraMúsica: balanço 2007

Em 2006 a empresa que administra o site de buscas Google lançou no mercado o serviço Google Analytics, um super analisador/contador de tráfego via internet. De graça, bastava você se cadastrar e colocar um script no código de seu site para ter um monte de informações sobre a circulação de cantinho internético. Pois bem, no final de 2006 (mais precisamente em 7 de dezembro) o Google Analytics passou a analisar o OutraMúsica (no ar desde 25.07.2005) a partir de sua home no Blogger (isto é, no endereço http://alteramusica.blogspot.com e não no www.outramusica.org, comprado apenas para facilitar o acesso de novos visitantes, redirecionando o acesso para o endereço Blogger).

Passado pouco mais de um ano já podemos contabilizar alguns número que, apesar de serem o que são (isto é, apenas números), deixam muito feliz este humilde e dedicado blogueiro.

Vamos lá. Em todo ano de 2007 foram contabilizadas 14.647 visitas, com 20.615 exibições da página principal.

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Tendo em vista o pouco tempo que a contagem foi oficialmente instalada no site, vale a pena dar uma olhada em todo seu histórico. Desde 7 dezembro de 2006 contabilizou-se 16.092 visitas e 22.810 da página principal.

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Deste total de visitas, 13.515 foram orginadas do território nacional. O segundo país que mais visita o presente blog é Portugal, com 1.380 visitas, seguido pelos EUA, com 303 visitas.

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Em terra brasilis, a conta fecha da seguinte maneira: Sampa lidera os acessos, com 5.534, seguido do Rio (1.036) e Belo Horizonte (557). Os números mostram uma concentração em Sampa, mas há um grande "porém": 3.368 acessos estão contabilizados como "not set", isto é, cujas origens não foram identificadas e podem ser de qualquer lugar do país.

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Apesar da concentração no Sudeste, o relatório geral mostra que o blog é acessado em todo país, nos mais diferentes Estados e regiões, tal como pode ser visualmente verificado no mapa abaixo (quanto maior for o círculo, maior é o número de visitantes naquela região):

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O que tudo isto quer dizer não sei ao certo, pois números tendem a ser frios e sua interpretação facilmente maleável e, por isto, tendenciosa. Deixo ao leitor esta ingrata tarefa.

Mas a mensagem mais importante é que não importa o número e o lugar, sempre haverá gente interessada em saber, discutir e pensar a música, e que a internet (à parte a Babel e a barbárie) pode sim ser utilizada para fins mais proveitosos.

E para aproveitar ainda mais, dê uma olhada nos sites relacionados no canto direito de seu monitor. E aproveite!

29 janeiro 2008

A festa das festas

Presente em diversos países, o carnaval é uma celebrações de múltiplas facetas
O povo ganha as ruas e os lugares das cidades. Muitos portam fantasias e adereços (apenas alguns se vestem como em seus dias cotidianos). A música soa por toda parte, e não raramente, diferentes músicas se sobrepõem umas às outras. Há cor, riso e alegria no ar, além do perfume de bebidas alcoólicas e do suor das pessoas que se aglomeram para celebrar.
A descrição acima se encaixa perfeitamente nos diversos tipos de festas carnavalescas existentes pelo Brasil afora. Mas, se de um lado, diz o dito popular que o Brasil é a terra do samba, pelo outro quase todo o planeta é terra de carnaval. Desde as Américas, passando pela Europa, Oceania e, mais recentemente, até algumas tímidas encenações na Ásia, o carnaval é – ao lado do Natal e do Ano-Novo – uma das grandes celebrações da humanidade. Mas talvez nenhuma delas superem o carnaval em termos de festa e de alegria: em suas diferentes facetas, o carnaval é definitivamente a celebração que mais energia exige de seus participantes.
A festa e suas origens
Mundialmente conhecido como carnaval – com apenas poucas variantes, tais como carnival, em inglês, e carnavale, em italiano – o termo tem sua origem do latim carnem levare que literalmente significa “abstenção da carne”. Em princípio sem nenhuma conotação metafórica, o abster-se da carne refere-se ao período de penitências e sacrifícios do cristianismo (em especial, o católico), isto é, a Quaresma, que se inicia na Quarta-Feira de Cinzas e termina na Sexta-Feira da Paixão.
Tradicionalmente, o carnaval é comemorado na terça-feira que antecede a Quaresma: tendo em vista o aspecto sóbrio – inclusive dietético – que se instalará durante estes quarenta dias, a véspera da Quarta-Feira de Cinzas é o dia do “bota-fora”.
Durante a Idade Média esta terça-feira foi a ocasião na qual toda e qualquer carne presente numa determinada casa deveria ser consumida de uma só vez em numa grande festança (por isto ela é batizada como Terça-Feira Gorda). Este fato é parte da explicação para o carácter orgiástico que o carnaval tem em alguns lugares.
Outra explicação possível da festa, apesar de carecer de fundamentação histórica, é que o carnaval tem suas origens na cultura romana da Antigüidade, onde certas festas populares (como chegada da primavera, as saturnais e o culto a Apolo) giravam em torno de uma espécie de totem móvel chamado carrus navalis. Tal como ocorreu com o Natal, o carnaval pode ter sido uma festa tipicamente “pagã” assimilada durante os primeiros séculos da era cristã.
Sua possível ascendência na cultura greco-romana é, inclusive, a explicação de um personagem-símbolo do carnaval brasileiro: o Rei Momo. Tido como a personificação do sarcasmo, tanto na Grécia como na Roma antiga, Momos (ou Momus) era uma divindade que surgia em festas e comemorações.
Apesar do termo carnaval se referir especificamente à Terça-Feira Gorda, o período carnavalesco muda conforme as diferentes tradições. Se no Brasil comemoramos o carnaval desde a noite de sexta-feira que antecede a Quaresma (e nos últimos tempos, como na Bahia, já adentrando na própria Quaresma), a festa tem sua extensão máxima, ao menos religiosamente, entre o Natal e a Quaresma. Em Colônia, na Alemanha, há um curioso carnaval no dia onze de novembro (11/11) que começa às 11h11min, e em Munique a celebração é, por sua vez, realizada no dia da Epifania (6 de janeiro).
O carnaval mundo afora
Seja qual for a origem do carnaval, uma coisa é certa: seu berço encontra-se sob solo europeu. Sua ligação com o cristianismo fez dela uma celebração que pode ser encontrada em diferentes países, cada qual festejando de um modo que pode ser entendido como um reflexo do inconsciente coletivo de sua sociedade. Dentre as diversas festas encontradas no Velho Mundo as mais globalmente conhecidas são as de Cádiz, na Espanha, e o de Veneza, na Itália.
O carnaval de Cádiz mantém-se como uma festa do presente, viva e que ainda hoje mobiliza sua população. Já o famoso carnaval de Veneza atem-se às tradições seculares, promovendo seus desfiles de mascarados à la século XVIII, apesar de outros tipos de atrações que a prefeitura promove para segurar o turista na cidade após o sumiço dos elegantes travestidos.
A origem cristã-européia é a chave para a compreensão da disseminação do carnaval mundo afora. Praticamente todo país que viveu sobre a influência de nações católicas desenvolveram, em maior ou menor medida, o hábito de comemorar o carnaval. Isto explica, por exemplo, o famoso Mardi Grass (ou Terça-Feira Gorda) de New Orleans, cidade norte-americana berço do jazz e que sofreu uma forte influência da colonização francesa.
Na América Latina o carnaval é uma festa presente em países como a Bolívia (e seu “Carnaval Oruro”), México, Colômbia, Honduras e Trinidad e Tobago, todas elas com suas origens em festividades espanholas.
Com o Brasil não foi diferente, e apesar das múltiplas manifestações do carnaval ao longo dos tempos e do território brasileiro, é historicamente clara as origens portuguesas de nossa folia nacional, entre as quais, o entrudo, herdado da corte portuguesa do século XVII. Considerado um tanto brutal – pois as pessoas eram alvejadas por bexigas de animais recheadas dos mais diferentes (e asquerosos) tipos de líquidos – a tradição do entrudo é ainda presente nos dias hoje na forma dos modernos sprays de espuma, serpentinas e pistolas d’água.
E é pela soma entre a tradição de hábitos imemoriais e o anseio presente de celebração e desforra que o carnaval mantém-se, mundo afora, como uma das mais contagiantes manifestações de alegria da humanidade.
Ilustração: Pieter Brueghel, o Velho: Combate entre o Carnaval e a Quaresma (1559).
[Publicado originalmente na Gazeta Mercantil, em 2007. Versão sem cortes, sem edição, sem revisão!!!]

07 janeiro 2008

Aplausos, para que te quero?

A propósito de um debate sobre etiqueta na sala de concertos engendrado na comunidade Orkut Música Erudita / Classical Music:

Como todo manifestação cultural, a música de concerto amalgama um público que com o passar dos tempos passa a criar hábitos todos próprios. Uma vez arraigados neste grupo de pessoas, todo um conjunto de comportamento surge, e então a noção "etiqueta" passa a ser pertinente. Pode até ser que fora da sala de concertos você não siga estes hábito à risca, mas dentro do templo sagrado é vital seguir a etiqueta/regra.

De fato, hoje em dia há uma série de convenções mais ou menos consolidadas. Em concertos e recitais só se aplaude no final da peça (jamais entre os movimentos, ou então você estará condenado à danação eterna). Em relação às óperas, cada uma possui um verdadeiro mapa de aplausos, trechos nos quais a platéia não raro chega a agir como claque (depois de uma ária famosa, de um dó agudo, etc.).

Particularmente, acho que a etiqueta é boa, pois auxilia a concentração do músico e da audiência. Mas a etiqueta deve ser usada como sugestão, não como lei. Deve-se ser superada quando desejado, e quando assim for, o cúmulo da falta de etiqueta é fazer um ruidoso shiiiiiiiiiii para refrear um aplauso espontâneo. Volta-e-meia a tal "etiqueta de concertos" inibe a espontaneidade do público e, quiçá, do próprio músico.

Vale a pena lembrar que o que hoje se considera "boa etiqueta" no passado não era bem assim. Mozart, em suas cartas, relata que o público parisiense aplaudiu uma sinfonia sua no meio do primeiro movimento (sim! durante a execução da música). Sobre um certa sinfonia de Beethoven (escrevo de cabeça, desculpe-me), relata-se que o público não só aplaudiu entre os movimentos, como também pediu para repetí-lo antes mesmo que as demais partes fossem tocadas.

Afinal, onde reside o meio termo entre a espontaneidade e a falta de etiqueta?

Pessoalmente, não aplaudo entre os movimentos, mas não vejo nenhum problema em quem o faça.

Para mim, a verdadeira falta de etiqueta reside numa conversa feita durante a música, num papel de bala sendo demoradamente aberto, no surto de tuberculose que acomete parte da platéia entre os movimentos (antes os aplausos do que as tosses, oras bolas!), nos bips sonoros dos relógios (tem os de 15 em 15 minutos, os de 30 em 30, e os de 60 e 60) e, é claro, nos celulares que tocam no meio de um espetáculo.

Não é aí onde reside o cúmulo da falta etiqueta?

24 dezembro 2007

Les musiciens / Os músicos

O que é ser músico? Como é a vida de um músico? Como é o cotidiano de um músico? Qual é essência do músico?

Não, caro leitor, não ousarei sequer a tentar a responder estas perguntas. Não só por pura incompetência, mas por, particularmente, não ver o menor valor em qualquer resposta que se proponha objetiva.

E subjetivamente?

Bem, aí é outra história. Também nesse caso me falta competência, mas sobra vontade de tecer algumas linhas conscientemente irresponsáveis. Mas quaisquer palavras que por ventura eu venha a discorrer sobre "os músicos" serão pequenas frente à grandeza com a qual o ilustrador Jean-Jacques Sempé o faz por meio de imagens em sua série "Les musiciens", comercialmente disponíveis e forma de livro ou, graficamente muito melhor, em uma caixa de cartões-postais que você não irá querer enviar a ninguém, simplesmente porque eles são muito bonitos.

Sempé é mais conhecido no Brasil pelas ilustrações que fez para a série "Le Petit Nicolas", em parceria com René Goscinny (os mesmo das aventuras de Asterix). Mas recentemente o público brasuca tem se deparado com suas elegantes aquarelas na capa de duas edições da Revista Piauí.

Quando se debruça sobre os profissionais e amadores da arte dos sons (ainda continua valendo esta definição de música?), Sempé nos proporciona um olhar que vai muito além da mera caricatura ou do simples retratismo. Por meio suas pinçeladas o ilustrador confere diversas dimensões e facetas não apenas ao músico, mas ao seu cotidiano, às suas desventuras, às suas delícias, ao instante único e irreversível que é cada apresentação.

As perguntas acima continuarão sem resposta (ainda bem!). Mas veja só o que só Sempé viu.

* O agrupamento temático abaixo é uma livre interpretação de quem vos escreve (o Sempé não tem nada a ver com isso). Clique em cima da imagem para ampliá-la.


Uma vida em solitude


Música à janela


Travessia


A sólida pequenez no grande vazio





O retrato do indivíduo enquanto músico